OPINIÃO. Oh captain! My captain! A viagem de Rui Machado (e desta seleção) só está a começar

Por Pedro Gonçalo Pinto - Março 8, 2022
Federação Portuguesa de Ténis/Miguel Pinto

Quem esteve na Maia a acompanhar de perto a sensacional vitória de Portugal sobre a Polónia tem a perfeita noção do ambiente que se viveu. Claro que caminhar sobre triunfos abre o céu, afasta as nuvens negras e deixa o sol a brilhar, mas ficou a pairar no ar o facto de algo importante ter acontecido. Não foi ‘só’ a permanência da Seleção Nacional no Grupo I Mundial da Taça Davis e a renovação do sonho de chegar às Davis Cup Finals, desta feita em 2023. Foi muito mais do que isso.

O sorriso que dava para ver nos olhos de Rui Machado – a máscara tapava o resto… – na conferência de imprensa de balanço da eliminatória deixou tudo isso bem à vista. O capitão estava orgulhoso, com razão, e visivelmente entusiasmado por saber que o momento é de esperança e de enorme potencial. João Sousa voltou a mostrar a fibra de melhor português de sempre, Nuno Borges mostrou que está pronto para o protagonismo e Francisco Cabral apresentou-se ao lado do amigo Nuno para mostrar que Portugal pode ter uma dupla firme e poderosa. Tudo isto com Gastão EliasPedro Sousa Frederico Silva no tal banco de luxo de que Machado tantas vezes falou.

No futebol tantas vezes se fala das boas dores de cabeça que um selecionador tem. O capitão dos heróis da Davis vai agora saber o que isso é de forma cada vez mais clara, mas deixemos isso para outra altura. É que, com duas eliminatórias por ano, olhar para a Taça Davis pode ser extremamente ingrato para o treinador, para o homem que toma as decisões. Quando se perde,  o dedo fica apontado para questionar toda e qualquer opção que tenha sido tomada. Mas, na hora desta vitória, é impossível não destacar a importância de Rui Machado.

Os três primeiros encontros podiam ter caído todos eles para o lado da Polónia. Sousa perdeu subitamente o segundo set e viu-se numa posição complicada, Borges entrou a perder por 5-0 em 15 minutos, Borges e Cabral deixaram fugir o primeiro parcial e viram uma vantagem de 5-1 na terceira partida quase acabar num 5-5. O que uniu todos estes momentos? Rui Machado, sem dúvidas nem assombros, a mostrar que havia um caminho para cerrar o punho e festejar no fim. Não são truques, não é magia, é trabalho e é cuidado.

Uma vez até pode ser sorte. Duas já começa a ser coincidência. Três é prova clara de competência e qualidade. Gerir as expectativas numa seleção com diferentes gerações, em diferentes momentos de forma, é traiçoeiro, mas a ideia que passa é que tudo foi feito de forma harmoniosa. Os tenistas merecem mérito, claro, mas não deixa de ser notável como houve uma cola que juntou todas as peças e fez com que a orquestra tocasse na perfeição durante este fim-de-semana memorável na Maia.

‘Oh Captain! My Captain!’. Eis um trecho de um poema de Walt Whitman, escrito em 1865. Tratava-se de uma obra sobre um capitão de um navio que morria depois de uma longa viagem em que a vitória havia sido alcançada, uma metáfora sobre Abraham Lincoln. Resta-nos dizer que a viagem deste nosso capitão está só a começar e que muitos triunfos há para alcançar. Os momentos de tempestade também vão surgir, mas a Maia trouxe-nos a certeza de que a tripulação está toda junta para reagir à adversidade. E que o João, o Nuno, o Gastão, o Francisco, o Pedro, o Frederico, possam dizer ao Rui ‘Oh Captain! My Captain!’ quando estiverem a ver a bandeira de Portugal nas Davis Cup Finals.

Pedro Gonçalo Pinto
Comentador Sport TV e ligado ao Jornal Record. Ténis acima de tudo.