‘Break Point’, da Netflix, é uma oportunidade perdida, mas muitas críticas são exageradas

Por José Morgado - Janeiro 12, 2023

É já esta sexta-feira que estreia ‘Break Point’, uma série da Netflix dos mesmos realizadores da famosa ‘Drive To Survive’, que nos últimos anos revolucionou por completo a forma como a Fórmula 1 passou a ser olhada, atraindo milhões de novos fãs para a modalidade. E essa comparação é, porventura, o maior problema para a primeira série totalmente sobre os circuitos mundiais de ténis disponível na Netflix, que foi apoiada desde início pelo ATP, WTA, ITF e pelos quatro Grand Slams…

Como um dos poucos jornalistas com a felicidade de ter tido acesso aos cinco episódios da primeira parte da série antes de estar ser disponibilizada ao público, assisti com entusiasmo, mas sem a expectativa de me surpreender muito. A revelação de que Maria Sakkari se retirou do ténis durante uma semana após perder nas meias-finais de Roland Garros em 2021, ou de que Taylor Fritz contrariou a vontade de toda a sua equipa técnica para entrar em campo na final de Indian Wells 2022 (que acabaria por vencer) acabam por ser duas das poucas novidades durante cinco horas colado ao ecrã, mas quem como eu (e todos os fãs de ténis) acompanha o circuito todos os dias, tendo acesso ao que dizem e fazem os jogadores diariamente, não esperava ficar muito surpreendido com aquilo que ia ver.

A Netflix não conseguiu ‘contratar’ para esta primeira temporada as principais figuras do circuito e isso é, sem dúvida, um dos principais problemas da série. Ainda que contem com personalidades interessantes como Nick Kyrgios, Paula Badosa (talvez a melhor a contar a sua história), Taylor Fritz ou Matteo Berrettini, a verdade é que ‘Break Point’ não integra aqueles que foram os protagonistas das principais ‘storylines’ de 2023: Novak Djokovic e a sua deportação da Austrália; Ash Barty e a retirada repentina da modalidade; Carlos Alcaraz e a incrível ascensão para o topo aos 19 anos; Rafael Nadal e o recorde de Grand Slams; Iga Swiatek e a surreal série de 36 vitórias seguidas; e, claro, as retiradas de Roger Federer e Serena Williams (ainda que seja de prever que este último tema seja amplamente abordado no segundo lote de cinco episódios, que sai em junho).

Não tendo acesso mais próximo a estes jogadores, nunca seria possível tratar os assuntos da maneira mais desejável, mas os temas deveriam ter sido, na mesma, centrais nos diferentes episódios da série, com a participação enriquecedora dos outros jogadores. Mas não só não foram, como foram quase totalmente ignorados. A deportação de Djokovic ocupa um minuto de episódio, a retirada de Barty quase esquecida e tem uma abordagem factualmente incorreta e tanto Carlos Alcaraz como Rafael Nadal só aparecem como ‘adversários’ de Berrettini e Fritz. E isso, sim, é uma enorme oportunidade perdida.

Compreendo — por tudo o que já disse — as muitas críticas feitas nas ‘reviews’ da série pelos meus colegas internacionais: a ‘Break Point’, para além de um nome melhor (será que todas as séries e podcasts de ténis têm de ter nomes de pancadas ou momentos de um encontro?) falta… drama. E logo num ano de 2022 em que aconteceu quase tudo na nossa modalidade.

Mas acho injustas as críticas que apontam a que mesmos os tenistas participantes na série não mostram a sua personalidade. A forma Toni Nadal assume preferir que o seu jogador (Felix Auger-Aliassime) perca com o seu sobrinho Rafael Nadal em Roland Garros (é talvez a minha parte favorita da série), como Nick Kyrgios se abre sobre os seus conflitos internos e a sua obesidade infantil, como Maria Sakkari e Paula Badosa e falam abertamente de uma depressão, como Matteo Berrettini e Ajla Tomljanovic abriram as portas do seu quarto de hotel (e entretanto até já terminaram a relação de três anos) e de como Ons Jabeur ou Casper Ruud mostram como se transforma a pressão de representar um país sem tradição tenística em casos de raro sucesso, deve ser valorizada e, na minha opinião trará novos fãs para a modalidade.

E esse, para mim, é o grande ponto: irá ‘Break Point’ encher as medidas dos fãs mais apaixonados por ténis? Não acredito muito. Fará a série com que meninos e meninas de todo o Mundo passem a querer acompanhar de perto todos os encontros de Matteo Berrettini e Paula Badosa? Estou convencido de que sim. E esse é esse impacto positivo que este ‘show’ pode trazer para a modalidade. Quem ‘chega’ ao ténis por causa dos jogadores que viu e gostou na série, pode ‘ficar’ para acompanhar todos os outros. Esse impacto não é fácil de ser medido, mas não pode ser ignorado.

‘BREAK POINT’ – EPISÓDIO A EPISÓDIO:

Episódio 1, Kyrgios e o encontro com a felicidade no Australian Open
– Talento depois de uma infância que não apontava que viesse a ser atleta
– Expectativas após derrotar Nadal em Wimbledon 2014
– Mudança na forma como vê o ténis desde a pandemia
– Família muito importante
– Racismo sentido em muitos momentos da sua vida e carreira
– Caminhada inesperada nos pares rumo ao título com Thanasi Kokkinakis

Episódio 2, Berrettini e a hipótese de ouro num Australian Open sem Djokovic
– Djokovic deportado e o foco vira-se para a oportunidade que todos os outros passam a ter
– Berrettini mostra a a sua família em Roma – origens humildes mas apaixonados por ténis
– Tomljanovic e como tudo começou: Matteo mandou-lhe mensagem no Instagram
– Berrettini vs. Alcaraz
– Afinal havia… Nadal: o campeão do Australian Open após derrotar Berrettini nas meias-finais

Episódio 3, Fritz e Sakkari em Indian Wells
– Indian Wells como quinto Slam
– Fritz procura ser a Next Big Thing do ténis masculino norte-americano
– Importância da namorada em todo o processo
– Maria Sakkari quer ser número um na ressaca da retirada de Barty
– Grega ‘retirou-se’ do ténis depois de ter perdido nas meias-finais de Roland Garros
– Treinadores de Fritz não queriam que ele jogasse a final de Indian Wells depois de sentir uma dor no aquecimento

Episódio 4, Madrid com Badosa e Jabeur em destaque
– Badosa chega a Madrid como número 2 e cheia de pressão
– Bonita, ar de super modelo e namorado ator e manequim
– Mulheres ainda lutam pela igualdade de oportunidades e dinheiro
– Ons Jabeur apresenta-se ao Mundo e leva-nos às suas origens
– Início de carreira difícil, com pouco dinheiro e papel do marido de Ons na equipa
– Badosa abre o livro sobre a depressão após fracasso de Madrid

Episódio 5, o que fazer para derrotar Nadal em Roland Garros?
– Rafa e o maior desafio do desporto mundial: derrotá-lo em Roland Garros
– Auger-Aliassime: o prodígio com o sonho de conquistar um Grand Slam
– Relação com Toni Nadal, o seu treinador e que durante mais de uma década trabalhou com o sobrinho Rafa
– Auger-Aliassime vs. Nadal e o drama sobre as declarações de Toni
– Casper Ruud e a afirmação num grande torneio pela primeira vez
– Encontro diante do ídolo Nadal na final de Roland Garros

NOTA FINAL: difícil encontrar palavras para o quão má é a tradução de inglês para português. Não creio que fosse assim tão difícil encontrar um especialista da modalidade que fizesse uma rápida revisão técnica dos termos relacionados com o ténis. ‘Match Point’ não é nem nunca foi ‘Ponto Decisivo’, uma ‘esquerda em slice’ não é um ‘corte’ e chamar a um episódio ‘Rei do Barro’ quando estamos a falar de terra batida… não tem justificação. E é muito simples de melhorar…

Apaixonei-me pelo ténis na épica final de Roland Garros 2001 entre Jennifer Capriati e a Kim Clijsters e nunca mais larguei uma modalidade que sempre me pareceu muito especial. O amor pelo jornalismo e pelo ténis foram crescendo lado a lado. Entrei para o Bola Amarela em 2008, ainda antes de ir para a faculdade, e o site nunca mais saiu da minha vida. Trabalhei no Record e desde 2018 pode também ouvir-me a comentar tudo sobre a bolinha amarela na Sport TV. Já tive a honra de fazer a cobertura 'in loco' de três dos quatro Grand Slams (só me falta a Austrália!), do ATP Masters 1000 de Madrid, das Davis Cup Finals, muitas eliminatórias portuguesas na competição e, claro, de 16 (!) edições do Estoril Open. Estou a ficar velho... Email: jose_guerra_morgado@hotmail.com