João Zilhão em entrevista: «À nossa escala conseguimos fazer coisas que admiram o ATP»

O Millennium Estoril Open vai em 2017 para a sua terceira edição e são esperadas longas maratonas com excelentes encontros para este ano. Com aquela que é, provavelmente, a melhor lista de entrada desde a primeira edição, o Bola Amarela sentou-se com o líder máximo do ATP 250 português, João Zilhão, para falar não só sobre as novidades que estão para vir como também o futuro do torneio, garantido, oficialmente, até 2018.
A um mês do arranque dos encontros, esta é a primeira de três partes da longa conversa com o diretor da prova. Abordamos o tema do torneio feminino, discutimos aquela que é “a melhor lista até à data” e ainda das dificuldades que um ATP 250 sente hoje em dia em trazer um top-10, numa altura em que os Grand Slams e os Masters 1000 estão cada vez mais competitivos… e mais ricos.

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Tem de regresso os dois campeões anteriores, os dois finalistas anteriores, para além de nomes como Del Potro e Ryan Harrison. Isto numa semana em que há mais dois torneios ATP. Pode dizer-se que esta é a melhor lista do Estoril Open até à data?

Sem dúvida. Temos nomes excelentes consagrados, como um Del Potro e Gasquet, até mesmo um Tommy Robredo, que já provaram que são excelentes tenistas e alguns já estiveram no top-10. E depois temos a nova geração, acho que o ATP está a fazer um excelente trabalho a promover os jovens.

Lembro-me de há muitos anos não se ouvir falar nos jovens, houve as épocas de Agassi/Sampras, de Federer/Nadal, e não se falava dos miúdos com 19, 20 anos. Acho que o trabalho que o Chris Kermode e a equipa têm feito é fabuloso para o ténis, porque cria estrelas, nomes, marketing à volta de personalidades que não seriam conhecidas.

Claro que alguns deles são extraordinários jogadores – Zverev, Kyrgios, … -, já estão por si só a fazer brilharetes com uma idade muito jovem. Acho muito bom haver este Race to Milan [Masters de sub-21], vai dar-lhes uma notoriedade enorme. E quando o Federer, Nadal e companhia arrumarem as raquetes a nova geração já está conhecida e vai continuar mais uma década fabulosa de ténis.

Miguel Pinto Luz (vice-presidente da CM Cascais), João Sousa e João Zilhão

Para além disso temos os melhores tenistas portugueses, que espero que cheguem cá a jogar bom ténis, tanto o João Sousa, o Gastão Elias como esta nova frota de jogadores que espero que cheguem cá em boas condições.


Esteve recentemente no Dubai a reunir-se com os diretores de outros torneios. Que feedback trouxe relativamente ao Estoril Open?

Neste momento está tudo a ser equacionado para a temporada de 2019 e as seguintes, e nós continuamos a fazer o nosso trabalho aqui em Portugal. Para o ATP são importantes três coisas: tratamento aos jogadores, aos sponsors do ATP e os resultados que o torneio consegue em termos televisivos, media e por aí fora, para além da saúde financeira dos torneios.

Eles querem promotores fortes em cada uma das cidades, um promotor que paga tudo a tempo e horas, torneios que dêem condições excelentes aos jogadores. O nosso enquadramento com o Hotel Cascais Miragem, proximidade com o Clube Ténis do Estoril, muitos courts de treino, ótima restauração, boa hospitalidade… o relatório que chega ao ATP do supervisor e da equipa é muito bom.

Para além disso ganhámos alguns prémios, de Best Marketing Promotion do ATP, e estive no ano passado em Delray Beach a apresentar a todos os torneios da América este evento como um case study de sucesso. Eles viram coisas a ser feitas neste Portugal pequeno (apenas em termos de dimensão) que são um benchmark para o resto do mundo. Coisas como um milhão de pacotes de açúcar com os jogadores, de selos, rotundas com bolas gigantes… isto não há em outros torneios e cidades, mesmo nos Masters 1000. À nossa escala conseguimos fazer coisas que admiram o ATP, conseguimos levar o evento para fora do evento.

“À nossa escala conseguimos fazer coisas que admiram o ATP”

Voltámos no Dubai a conseguir posicionar-nos muito bem dentro do ATP, e isso é importante para a continuidade do torneio, para estar bem posicionado no calendário e para termos uma boa semana a partir de 2019 e nos anos seguintes.


Numa altura em que o prize money dos Grand Slams está a aumentar cada vez mais, os Masters 1000 estão cada vez mais fortes, está a ser cada vez mais difícil para um ATP 250 negociar a vinda de jogadores e de patrocinadores?

A nível de jogadores hoje em dia está muito mais difícil. Estive muito ligado à contratação de jogadores entre 2001 a 2012 e não havia esta categorização de Masters 1000, 500 e 250. Havia os Super 9 e depois havia os Internacionais. Hoje em dia conta-se pelos dedos de uma mão os top-10 que jogam um ATP 250, e o que aconteceu? Os agentes percebem isto e por isso os preços dos cachets subiram muito, os últimos dez anos foram uma loucura.

Nós estamos “ensanduichados” entre tubarões [torneios] enormes (Monte-Carlo e Barcelona antes, Roma e Madrid depois), e nenhum jogador de topo quer jogar tantas semanas seguidas, portanto ficou muito mais difícil. Por isso é que olhando para o nosso quadro é quase um milagre ter conseguido convencer alguns destes jogadores a virem cá, e acho que para as condições que temos hoje em dia temos um quadro fortíssimo.

“É quase um milagre termos conseguido convencer
alguns jogadores a virem cá”

No antigo torneio, no Jamor, a situação de calendário e de torneios, e como o ATP estava distribuído em termos de categorias, tornava-se mais fácil e mais acessível convencer jogadores do top-10.


Então, se pudesse, mudaria a posição do Estoril Open no calendário?

Não. A semana antes do Grand Slam [Roland Garros] não é ideal porque há muitos jogadores que não jogam aí, e a semana antes de começarem estes até apanha a Taça Davis. Imaginem que eu tinha o Del Potro a jogar a Taça Davis, joga dez sets em dois dias, está cansado e salta fora…

Prefiro assim, muitos destes jogadores vêm diretos para aqui e começam aqui a terra-batida. Vêm frescos, em boa forma. E com este novo figurino do estádio mais pequeno, de 3600 lugares, há condições para esgotar todos os dias. Esgotámos três dias no ano passado e acredito este ano podemos esgotar mais.

Nem vamos ter espaço suficiente para meter tantos bons jogos no Estádio Millennium todos os dias, vamos ter de os espalhar pelo Court Cascais e Court 3.


Por falar em Court Central, vai haver alteração no recinto em relação ao ano passado?

Não podemos inventar muito mais. A zona do Fun Center vai ter muito mais animação, com um demo court da Wilson o dia todo. Muita variedade gastronómica, vamos melhorar a entrada. Queremos que as crianças tenham uma experiência única e vamos por isso criar muitos pontos de interesse dentro dos courts cobertos. Relativamente ao Court Central acho que está bem calibrado para a realidade do ténis em Portugal. Há uma proximidade grande com o court.

 

Mas apesar da limitação do espaço, consideraria viável trazer um torneio feminino de volta a Portugal?

Eu gosto muito de ténis feminino mas, neste figurino, ter aqui um evento WTA não era comportável. Com este número de courts está perfeito para um torneio ATP, um torneio misto ia prejudicar o que os jogadores querem: treinar, ter courts, condições, espaço. Iam ser pessoas a mais. Este espaço é perfeito para os jogadores do ATP e mesmo quem perdeu quer ficar aqui mais um pouco a treinar e a preparar-se para Madrid na semana seguinte.

Se um dia isto [Clube de Ténis do Estoril] crescesse... para fazer isso confortavelmente é preciso, pelo menos, mais seis courts. É muito ingrato um jogador vir para um torneio e não poder treinar, para além de ter tudo cheio. A WTA traria mais do dobro das pessoas, a logística é complicada e financeiramente é difícil justificar um evento combinado. O custo aumenta mais de um milhão de euros, entre o prize money e todas as licenças e cachets, mas é muito difícil ir buscar esse dinheiro adicional aos sponsors…


E mesmo a nível de bilheteira…

Também. Isto das licenças é muito caro. Nós conseguimos renegociar uma nova licença com o ATP, e ir atrás de duas era uma loucura. Nós não herdámos nada, foi uma coisa nova, teríamos de ir negociar com a WTA algo de raiz.

Sobre o autor
- Licenciado em Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. Jornalista da GQ Portugal e colaborador do Bola Amarela desde novembro de 2011, pouco tempo depois de começar a seguir mais atentamente o mundo do ténis. Pretende nunca mais parar.

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