João Zilhão fala da «guerra» por Del Potro e o regresso de Kyrgios: «Qualquer pessoa pode odiá-lo, mas tem um sentimento por ele»

Foi em 2015 que João Zilhão, diretor do Millennium Estoril Open, chegou a acordo com a ATP para organizar uma nova prova masculina dar-lhe também uma nova casa em Portugal, o Clube de Ténis do Estoril, por onde já passaram nomes como Borna Coric, Nick Kyrgios e Richard Gasquet.
Esta é a segunda de três partes da longa conversa com o diretor da prova. Fala-se da contratação de Juan Martin del Potro, do regresso de Nick Kyrgios pela terceira vez e ainda da (in)viabilidade económica dos eventos mais pequenos no circuito profissional.

Ler parte 1 aqui


Restam três wildcards para o quadro principal. Acredito que vá atribuir sem grande surpresa um convite ao Gastão Elias embora haja a possibilidade de ele vir a não precisar. Os outros dois, estão reservados para mais algumas surpresas?

Obviamente que o Gastão sendo top-100, com a carreira que tem, gosto imenso dele, está muito bem posicionado para receber um wildcard. Na minha perspetiva os wildcards são claramente para ajudar o ténis português, e quando é que há uma exceção? Quando vem um nome de tamanha dimensão em termos mediáticos que vem impactar a audiência televisiva, os media, venda de bilhetes e por aí fora…

E por isso é que definitivamente vai ficar um [wildcard] para a última semana. Alguém que perca cedo em Monte-Carlo, em Barcelona ou em Budapeste, e que depois queira jogar mais encontros de competição e preparar-se melhor para os torneios seguintes.


O facto de serem de última hora significa que de momento não há negociações com mais nenhum jogador internacional? Ou até mesmo pedidos?

Há muitos pedidos de excelentes jogadores da nova geração, especialmente. Os consagrados têm a agenda feita, só acontece se, por exemplo, um Nishikori perder à primeira em Barcelona e quiser mais encontros de preparação para Madrid e Roma. Obviamente que esse era um nome que seria mais do que considerado. Vamos ter sempre em atenção o que é que acontece e esperar que possa haver um desses pedidos que seja bom para o torneio.

“Há muitos pedidos [de wildcards] de excelentes
jogadores da nova geração”


Tem alguma preferência sobre algum jogador?

No ano passado o Djokovic e o Federer perderam cedo em Monte-Carlo e eu mandei logo uma SMS aos agentes deles a dizer que tinha um wildcard disponível. O Federer ainda considerou, mas depois não veio. Normalmente fazemos o nosso papel, e depois damos as mordomias que conseguimos dar. Não se trata tanto da parte financeira, porque é muito pouca, mas são as facilidades que temos num novo e excelente enquadramento.


Disse que as negociações com o Del Potro demoraram meses. Quais eram os principais entraves ou condições para a vinda do jogador?

Os entraves eram vários. Começando pelo valor financeiro, pois o Tony Godsick [agente de Del Potro e de Roger Federer] está habituado a valores muito altos quando trata do Federer e depois faz uma desmultiplicação para o Del Potro, que continua a ser muito caro e foi-se valorizando com os Jogos Olímpicos e Taça Davis. Foi ganhando muito protagonismo e com o final do ano passado dele ficou a um preço astronómico.

Juan Martin del Potro venceu o Estoril Open em 2011 e 2012

Havia muitos torneios a querê-lo e estava ali numa guerra, e quando o agente sente todo este interesse o preço sobe, começam as negociações e a certa altura nós não conseguimos competir com o livro de cheques de Istambul. Eles têm um budget muito elevado para jogadores, ao ponto de conseguirem pagar o preço de um Federer, mas nos dias de hoje Istambul infelizmente sofre por razões de segurança e dos tristes atentados que tem sofrido.

Demorou muito tempo porque eles não aceitaram propostas para trás e para a frente, não chegávamos a um entendimento em termos de valores mas acabámos por ficar muito contentes por ter conseguido fechar [o acordo] no início do ano.


Porque Kyrgios pela terceira vez?

Quando estive a negociar o Kyrgios em fevereiro de 2015 ninguém o conhecia. Era alguém que tinha feito uma coisas aqui e ali mas ainda era pouco conhecido. Hoje em dia vem com vitórias sobre Federer, Nadal, Djokovic… vem com títulos, vem com um estatuto de muito carisma, um jogador que vende bilhetes. É um tipo de jogador que todos os torneios querem.

Qualquer pessoa pode odiá-lo, mas tem um sentimento por ele, e esta coisa do carisma não se compra. Ou tens, ou não tens. E por isso estamos muito contentes em ter o Del Potro e o Kyrgios.

“Qualquer pessoa pode odiá-lo, mas tem um sentimento por ele”


Economicamente falando, foi mais complicado trazer Kyrgios ou Del Potro?

Foram os dois complicados, foram meses para cada um. [Em termos financeiros] são muito parecidos.

Quando iniciei as negociações do Del Potro com o Tony Godsick, para os valores da proposta o ranking dele era totalmente irrelevante. Tínhamos em cima da mesa dois jogadores, o Milos Raonic e o Del Potro, e acabámos por fechar com o Del Potro apesar de o Raonic ser número quatro do mundo. Julgo que para 80%, 90% das pessoas em Portugal a preferência é para Del Potro, pela latinidade, pelos títulos conquistados em Portugal.

Aqui está um exemplo em que entre o número quatro do mundo e o 34.º nos levou a optar pelo que está abaixo. Vale mais o Federer a 17.º do Mundo, como esteve em Janeiro deste ano, do que qualquer outro jogador do Top-10. Por vezes o ranking não é tudo e a notoriedade não está dependente do ranking.

“Tínhamos em cima da mesa dois jogadores, o Milos Raonic e o Del Potro, e acabámos por fechar com o Del Potro”


Foi o João quem negociou a vinda do Federer nos dois anos em que ele cá esteve, e fala-se que o preço para isso teria sido em torno de um milhão de euros. Pode fazer-se a comparação desse valor com o orçamento total do Estoril Open para a contratação de jogadores?

O Federer não custou um milhão de euros 2010, custou bastante menos do que isso. E não, não gastamos tanto dinheiro hoje em dia, os tempos são outros e o torneio é outro. Este é um torneio mais comedido em termos de despesa e orçamento. É mais intimista, estruturado para haver um budget que é cumprido e tudo é pago a seguir ao evento um mês depois. Não entramos em loucuras de cachets, respeitamos o budget baseado naquilo que o evento consegue comportar.

“Não entramos em loucuras de cachets”

Os tempos de antigamente eram outros, com outros patrocinadores, em que haviam outros orçamentos e realmente as coisas eram diferentes. Os patrocinadores são cada vez mais cirúrgicos no dinheiro que investem neste e noutros projetos e querem saber exactamente o retorno que têm. Há muita concorrência em termos de outros eventos e patrocínios que não entram aqui porque têm outros desportos. Acho que temos uma excelente família de sponsors e o torneio está bem sustentado assim.

Se o Federer viesse por 1,5 milhões de euros? O nosso orçamento não ia conseguir comportar isso hoje em dia. O Federer valorizou muito nos últimos anos e é incomportável a não ser no Dubai, no Qatar, em Istambul… o nosso orçamento é muito comedido mas melhorou este ano e temos um ótimo cartaz para todos os dias haver animação no Court Central.

Sobre o autor
- Licenciado em Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. Jornalista da GQ Portugal e colaborador do Bola Amarela desde novembro de 2011, pouco tempo depois de começar a seguir mais atentamente o mundo do ténis. Pretende nunca mais parar.

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