Frederico Marques: «O João não é nada chorão, é uma pessoa forte»

Por admin - 12 Novembro, 2015

Frederico Marques viu o seu pupilo João Sousa, número um português e atual 33.º classificado do ranking mundial, conquistar o segundo título pertencente ao ATP World Tour no último torneio da época: Valência. Esses e outros temas que foram abordados em conversa com o Bola Amarela, na Academia de Ténis da Beloura, em Sintra.

ENTREVISTA – PARTE I

Bola Amarela (BA): Vamos começar por aquilo que é mais recente. Talvez não seja o que é mais importante para ti, visto que sempre disseste que os rankings são o espelho dos resultados ao longo da época. Mas o João subiu novamente no ranking, esta semana ao 33.º posto. Toda a gente diz que é um marco histórico no ténis português. Para ti também é histórico?

Frederico Marques (FM): Não, não penso muito assim. Foi um ano muito bom, é um resultado de um muito bom trabalho, muita persistência, e penso que não vai ficar por aqui. É mais uma etapa. O João começou a entrar nos primeiros 100, nos primeiros 50, nos primeiros 40, apesar de não ter sido tão gostável como desejávamos. Agora está no número 33 e é apenas um número. O mais importante é o nível que ele tem. Que melhore os seus golpes, o seu jogo, seja uma pessoa mais estável e melhor pessoa. De resto, vem por acréscimo. O ranking às vezes não acompanha. Desde maio ou junho que o João já estava a jogar a um nível de top 40, mas o ranking não acompanhou. Acabou por acompanhar mas só ao final do ano, mas o mais importante, e o que eu tento passar ao João, o que lhe tento incutir, é que é preciso trabalhar dia a dia e sem pensar em números.

BA: Tal como tu disseste, este ranking do João é muito fruto desta fase final da época. Mas, desde a final de São Petersburgo, o João fez segunda ronda em Kuala Lumpur, em Tóquio, primeira ronda em Moscovo e em Xangai… e depois título em Valência. Porque é que achas que ele deu o salto nessa semana?

FM: Se não fosse em Valência acabaria por ser no início do ano de 2016 ou a meio do ano, era uma questão de tempo. O nível do João estava ali, mas os resultados não apareciam. Perdeu alguns encontros em terceiros sets em que estava a vencer, não foi feliz em uma ou outra ocasião, como em Kuala Lumpur. Em Tóquio, a ganhar a um jogador de top 20 e também a ganhar com uma certa facilidade na 2.ª ronda, com sete ou oito pontos de break, faltou sempre um bocadinho, mas o nível estava lá. Ganhou ao Feliciano López, fez um excelente jogo em Xangai, esteve quase a ganhar em São Petersburgo… Também esteve perto de ganhar ao Dimitrov, um ex-jogador do top 10, por isso o nível estava ali.

Era uma questão de tempo, era preciso estabilizar um bocadinho. Houve também alguma ansiedade para acabar nos primeiros 40 do Mundo. Sabíamos que faltava uma ou outra vitória num outro torneio. Faltou um bocadinho essa tranquilidade, porque o nosso objetivo era esse, ter acabado nos primeiros 40. Mas estava tranquilo, apesar da derrota na primeira ronda em Moscovo com um jogador perto do top 100. Foi uma derrota que não estávamos à espera. Estava tranquilo, custou-me, mas continuei a trabalhar. Disse ao João em Moscovo que era uma questão de tempo, chegar tanto aos valores económicos como ao ranking. Que estivesse tranquilo. Se não fosse em Valência seria em Paris. Se não fosse em Paris seria no Open da Austrália, sendo que ele aí conseguiu estar tranquilo e continuámos a trabalhar com tranquilidade. Até que os resultados chegaram.

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BA: Muita gente também falou do quadro de Valência e no facto de os jogadores mais credenciados terem abandonado precocemente o torneio. Achas que isso também foi uma alavanca para o João conquistar o título?

FM: Não, eu penso que foi um dos melhores torneios do João… e facilidade não houve. Podemos ver que o João ganhou a cinco jogadores com um ranking superior. Claro que o primeiro cabeça de série acabou por não jogar, que foi o David Ferrer, mas ganhar a cinco jogadores com ranking melhor do que ele acho que não é nada fácil. Muitos deles nos primeiros 30, 40 do mundo, um Gilles Muller numa primeira ronda que já ganhou a vários jogadores. Fez uma excelente época. Um Benoit Paire que vinha de fazer uma final de um torneio ATP 500, um Roberto Bautista Agut que foi número 14 do mundo. Foi um excelente torneio.

BA: Falando mesmo da final do torneio de Valência, o João esteve em desvantagem durante grande parte do encontro. Primeiro com set abaixo e depois com break abaixo. Nessa altura, em pleno segundo set e a poucos jogos da derrota, o que é que te passou pela cabeça?

FM: O que me passou pela cabeça foi que tínhamos de mudar alguma coisa. Tínhamos de mudar taticamente. As coisas não estavam a correr tão bem. A tática utilizada ao princípio não estava a ter os seus resultados. O João estava a jogar mais com o coração do que com a cabeça. E aí tivemos de mudar, tivemos de tentar pôr algumas dúvidas ao adversário, foi o que o João fez, estivemos os dois lúcidos, algo que conseguimos fazer e que em outras finais não foi possível. Tivemos a felicidade e a sorte de as coisas acabarem por correr bem.

BA: Em entrevista ao jornal A BOLA, disseste que avisaste o Carlos Costa, que vos acompanhou durante toda essa semana, para não entrar em euforias depois de o João ter carimbado acesso à final. Qual foi a razão?

FM: Há sempre aquela felicidade de chegar a uma final, é diferente de uma meia-final, de uns quartos de final. Numa final existe sempre aquela felicidade porque estamos às portas de mais um título, de mais uma vitória e já saímos com o caneco, como se costuma dizer. Mas há sempre essa expectativa, estamos muito contentes, no dia seguinte vamos chegar ao encontro que tanto desejávamos e eu decidi manter um bocadinho esse low-profile, como se fosse uma primeira ronda, porque sabemos que nas redes sociais há mais telefonemas, há jornalistas mais em cima. As coisas mudam quando se passa de uma meia-final para uma final, como é normal. Optei por avisar o Carlos para estar tranquilo e que o João notasse essa diferença de estar calado, que ninguém falava muito com ele. Queria que ele notasse um bocadinho essa tensão, que havia tensão.

BA: Mas achas que essa tensão é benéfica para um jogador?

FM: Neste caso parece que sim e as coisas correram bem. Não queria entrar em euforias, já estamos numa final, amanhã é que vai ser e estou muito contente… não! Quis manter as coisas com alguma pressão, mas uma pressão que seja tranquila. Não foi uma grande vitória na meia-final, o meu feedback ao João e a minha análise ao jogo foi ‘foste muito melhor do que ele, por isso o mais normal é estares na final’. Portanto não foi uma grande vitória, foi o que eu lhe passei em relação ao Pospisil. Tivemos um João sólido, um João agressivo, muito melhor naquele dia a servir, a responder, nas longas trocas de bola também estava superior, por isso era uma questão de tempo o João ganhar aquele encontro. O meu feedback foi: ‘bem jogado, realmente foste superior e amanhã há mais’.

BA: Nesses momentos mais críticos, quais são as rotinas que vocês utilizam para ultrapassarem aquilo que é mau e transformarem em bom?

FM: Quando as coisas não correm tão bem, como por exemplo em Tóquio, depois de ganhar a um jogador do top 20, o Feliciano López, depois no dia a seguir acaba por perder para um jogador que está fora dos primeiros 100. Claro que foi uma derrota que nos tocou, porque sabíamos que era muito importante, os pontos eram importantes, economicamente era importante, era um ATP 500, era chegar pela primeira vez aos quartos de final de um ATP 500. Ficámos os dois tocados, claro, ficámos um bocadinho. Mas nós nunca viramos as costas ao problema, fomos para o quarto, eu pedi com rapidez que queria ver o jogo com rapidez em USB. Fomos e analisámos o porquê de ele não ter conseguido concretizar pontos de break, faltou ser agressivo, faltou ser um bocadinho mais paciente, faltou ter um bocadinho mais carácter. Estivemos a analisar o que faltou para termos aquela derrota. Em Moscovo a mesma coisa. Quando ganha gostamos de ver também, tento passar ao João aquela tranquilidade que sinto e que é normal. O normal é vencer, para isso é que trabalhamos todos os dias. O João também gosta de analisar e estamos sistematicamente a ver ténis. Somos duas pessoas que adoramos a crítica, adoramos ir ao facebook ver o que é que dizem, o que dizem bem, o que dizem mal e nunca viramos as costas.

BA: Ainda falando desses momentos mais críticos, também em entrevista ao jornal A BOLA disseste que choraste meia hora depois da derrota do US Open, choraste depois do desaire na primeira ronda em Moscovo. É assim tão doloroso?

FM: Foi um momento em que fiquei tocado, claro. Também sou humano e também cometo os meus erros e quero que o João seja melhor jogador todos os dias. Mas pronto, aprendi, vi o que aconteceu, comecei a encontrar soluções, onde é que ele pode melhorar e, mais tarde, as coisas correram bastante melhor, com mais finais. Aprendemos naquela situação, mas não foi só em Nova Iorque. Eu sou uma pessoa assim, a nossa relação é uma relação profissional mas também existe muita amizade. Sofro com ele, com as suas vitórias, com as derrotas e existe um bocadinho essa desilusão quando as coisas não correm bem. Porque não é só uma coisa monetária, não é só uma coisa de resultados ou de objetivos. Ele é um grande amigo que eu tenho e quando o vejo com essa tristeza quando não consegue passar uma eliminatória… claro que fico triste. Para mim o João não é apenas um atleta. É um dos meus melhores amigos e quero imenso que ele seja feliz também como pessoa, com a família dele, na carreira dele. Há muitas pessoas por trás que querem tentar ajudar ao máximo.

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BA: És mais chorão do que ele?

FM: Ele não é nada chorão (risos). Ele é uma pessoa forte, eu também sou, mas tenho os meus momentos. Acho que toda a gente tem as suas dúvidas. Até o próprio Mundo tem dúvidas e naquele momento, claro, havia expetativas, sabíamos que o João estava bem. Estava perto do top 30 na ‘race’. Havia expetativas, havia um bom quadro no US Open, mas as coisas acabaram por não correr bem. Foi uma tristeza que senti, depois de dois sets abaixo, o João faz dois sets iguais e com imensos pontos de break para passar para a frente não conseguiu. Um adversário com cãibras, com problemas físicos, e mesmo assim não conseguiu sair com a vitória.

BA: Nesses momentos de choro e de maior desilusão, alguma vez pensaram em separar-se profissionalmente?

FM: Não, não. Se algum dia acontecer, vou aceitar, e se for por opção minha e se tiver de acontecer, acontece. Não há nada que dure para sempre. Se esse dia chegar e quando chegar vou estar tranquilo, porque dou tudo o que tenho e o que não tenho todos os dias. Há muitas coisas que não faço na minha vida para poder dar mais ao João, vivo um bocadinho a vida dele e faço-o com todo o prazer. É um grande amigo meu, é a minha profissão, foi o que eu escolhi. Tenho de aceitar, é assim que eu vivo, para que ele seja melhor pessoa e melhor jogador. Nunca pensei nisso, mas se acontecer, acontece. Hei de continuar a dar o melhor de mim a outra pessoa. Eu sou assim, dou-me a cem por cento, com a minha família, com a namorada, com amigos, com o meu jogador. Durmo tranquilo, porque se as coisas não correm bem eu tento dar sempre o máximo.

BA: Se agora tivesses uma proposta de um jogador do top 10 ou top 20 mundial. Aceitavas ou já alguma vez tiveste essas propostas?

FM: Não, nunca tive propostas de jogadores do top 10. Já tive propostas de jogadores do top 50, jogadores do top 100, mas neste momento estou feliz com o João. Tenho um projeto com ele e sou uma pessoa que faz projetos de ano a ano. Tenho os meus mini objetivos, de três em três meses, de seis em seis, mas o meu contacto com o João é ao final do ano. Todos os anos falo com ele. ‘Estás contente, não estás contente, gostaste, não gostaste, o que é que eu fiz bem, o que não fiz’. E com essa amizade existe sempre essa sorte de dizer as coisas na cara. ‘Olha, gostei desta semana, não gostei, acho que fizeste bem, não fizeste bem’. Ele diz-me isto, eu digo-lhe isto e tentamos evoluir os dois assim. Se me aparecesse outra opção, diria que não, porque tenho um objetivo: que o João seja melhor jogador e melhor pessoa. Quando eu comecei nisto e me ensinaram disseram-me que o objetivo é fazer com que o jogador chegue ao seu limite. Se o limite dele for que ele tenha só um ponto ATP, é o limite dele. Mas o treinador tem de ver que já espremeu o jogador ao máximo. Se o limite dele é ir para uma universidade, é, se é jogar um torneio nacional, é. A meu ver, o João ainda não está no limite. Ainda não estou tranquilo nesse aspeto. Tenho na minha cabeça onde é que ele pode chegar. Ainda está um bocadinho longe do seu limite.

BA: E qual é esse limite?

FM: Bom, quero desde já dizer que os meus objetivos para 2016 passam por ter um João competitivo para os Jogos Olímpicos, que é um marco histórico para o ténis português e para a carreira do João, é um momento importante. E entrar nos primeiros 30 do Mundo. Vê-lo com o número dois à frente é incrível. Acho que todos os jogadores sonhavam, desde pequenos, estar nos primeiros 30 do mundo. O meu objetivo é esse, trabalhar bem na pré-temporada e que ele, o mais rapidamente possível, possa estar nestes primeiros 30 para tentar chegar mais perto do top 20.

Segunda parte da entrevista a ser publicada esta sexta-feira, 13 de novembro.

Entrevista – Frederico MarquesOs bastidores da nossa conversa com Frederico Marques! Primeira parte da entrevista mais logo.

Publicado por Bola Amarela em Quinta-feira, 12 de Novembro de 2015