Fred Perry vs Von Cramm: a ‘batalha’ nos courts na antecâmara da guerra

Por Tiago Ferraz - Maio 19, 2020
VonCramm-perry

Fred Perry é, provavelmente, um nome que lhe é familiar, mas que, por algum motivo, muitas pessoas não o associa ao ténis: afinal, Fred Perry é uma marca de roupa bem conhecida a nível mundial.

Nesse sentido, esta é uma curiosidade que ‘esconde’ a brilhante história que está por trás daquele que é considerado por muitos como um dos melhores e mais estilosos tenistas de todos os tempos que, antes de se dedicar à modalidade da bola amarela foi número um mundial…De ténis de mesa.

Com efeito, o Bola Amarela foi à procura da história do tenista britânico que teve uma rivalidade intensa com o alemão Von Cramm numa altura em que o regime nazi florescia na Alemanha da década de 30.

Fred Perry nasceu a 18 de maio de 1909 e quando era jovem estava muito ligado ao ténis de mesa e não ao ténis tradicional: para se ter uma ideia, Perry conseguiu ser campeão do mundo da modalidade em dois anos consecutivos em 1928 e 1929 com apenas 20 anos de idade de acordo com informações veiculadas na página oficial da Fred Perry.

Ainda assim, era o ténis que mais derretia o coração de Fred Perry que acabou por deixar o ténis de mesa de lado e dedicou-se à modalidade que todos conhecemos para, apenas cinco anos depois de ter sido campeão de ténis de mesa, se tornar campeão de um torneio do ‘Grand Slam’ pela primeira vez na carreira: em 1933 Perry venceu o US Open frente ao australiano Jack Crawford. No ano seguinte, em 1934, Perry continuou a dar nas vistas e acabou por vencer três dos quatro ‘majors’: Australian Open, US Open e o torneio de Wimbledon sendo que Von Cramm foi coroado ‘rei’ em Roland Garros depois de bater Jack Crawford numa final decidida em cinco partidas.

Em 1935, fez-se história uma vez que o britânico tornou-se no primeiro tenista de todos os tempos a conquistar o denominado ‘Grand Slam de carreira’ ao vencer os quatro ‘majors’ na mesma época: Australian Open, Roland Garros, Wimbledon e o US Open. Esta era uma altura em que Perry vivia com a ‘sombra’ de Von Cramm uma vez que o alemão, que também nasceu em 1909, dividia o protagonismo com o britânico…E já lá vamos.

Depois do ano perfeito de Fred Perry, apenas Von Cramm (e Don Budge a espaços) conseguiu intrometer-se no domínio do tenista britânico o que criou uma rivalidade muito forte e com consequências a todos os níveis: Cramm vinha de uma família aristocrata da Alemanha e conseguiu vencer o torneio de Roland Garros em 1936, precisamente diante de Fred Perry, sendo que, por esse feito e por ser alto e ruívo, Adolf Hitler considerava-o o expoente máximo da raça ariana no mundo do ténis. Ainda assim, nem tudo foi um ‘mar de rosas’ para o germânico uma vez que o próprio Cramm recusou-se a fazer parte do partido nazi num episódio que quase lhe tirava a vida e, a partir desse momento, o seu estado de graça ‘esfumou-se’.

Como consequência, o alemão Von Cramm foi castigado e impedido de ir até França defender o seu título no torneio de Roland Garros por ordem do regime nazi. O torneio acabaria por ter, novamente, um vencedor alemão Henner Henkel.

Anos antes, em 1933, Von Cramm já havia tido problemas pelo facto de ter contestado uma decisão da Federação de Ténis Alemã que proibia que os jogadores judeus fossem eleitos para representar o país na Taça Davis e, nesse sentido, Daniel Prenn, um tenista alemão judeu, não pôde ir representar as cores da sua bandeira. Von Cramm ainda tentou dissuadir Hitler, mas não teve sucesso. Depois da vitória em Roland Garros em 1934, o alemão começou a ser contactado com frequência por parte do terceiro reich.

É neste clima de guerrilha que se inicia mais uma edição da Taça Davis que teve muita polémica: a final da prova de 1937 foi jogada entre os Estados Unidos de Don Budge e a Alemanha de Von Cramm sendo que o ano de 1937 marcou, porventura, o melhor e o pior ano de Von Cramm: o alemão foi considerado o melhor tenista do mundo nesta temporada depois de vencer Wimbledon e Roland Garros na variante de pares, mas nem tudo correu bem. A Gestapo, a polícia secreta do estado alemão, tinha andado a estudar ao pormenor a vida do tenista e descobriu que o próprio era homossexual e que, apesar de estar casado com uma mulher, tinha um amante judeu chamado Herbst. Nessa época, na Alemanha Nazi, estes factos eram o suficiente para que Gottfried von Cramm fosse condenado à morte, mas o alemão ‘salvou-se’ do ‘destino’ devido à sua grande fama enquanto tenista. Ainda assim, a Gestapo viria a descobrir que o alemão ajudou o seu ‘amante’ a fugir para a Palestina e a planear a própria fuga. Von Cramm foi condenado a um ano de prisão, mas viu a sua sentença ser reduzida por se ter provado que o alemão foi algo de chantagem, mas a sentença de prisão fez com que o próprio perdesse os apoios da Federação de Ténis Alemã o que provocou uma grande revolta no mundo do ténis: para se ter uma ideia, o britânico Fred Perry, um dos maiores rivais de Von Cramm, assinou uma petição, juntamente com Don Budge, dirigida a Adolf Hitler para que libertassem Von Cramm numa prova de que o ténis tem valores que estão muito acima daquilo que é a rivalidade dentro dos courts.

Em 1939, Von Cramm tentou regressar aos courts, mas o seu regresso foi negado uma vez que a organização do torneio de Wimbledon não permitia que tenistas que tinham estado presos por atos moralmente condenáveis jogassem a prova londrina.

Ainda assim, já na fase final da sua carreira, em 1951, com 42 anos, Von Cramm conseguiu regressar a Wimbledon para a ‘despedida’ e, finalmente, conseguiu jogar na Taça Davis, em 1953,  onde venceu 12 encontros seguidos numa edição da prova que viria a ser perdida pelos alemães para a congénere da Suécia. Ao longo da sua carreira, Von Cramm fez mais de 100 encontros pela seleção alemã na Taça Davis.

O alemão retirou-se em 1953 e tornou-se num empresário na indústria do algodão e foi dirigente na Federação de Ténis Alemã. Acabou por morrer em 1976 no acidente de viação no Egito onde estava por causa de uma reunião de negócios.

Fred Perry, como é óbvio, tornou-se também num dos maiores nomes de sempre da modalidade e da indústria uma vez que foi ele próprio que popularizou o Polo Fred Perry que perdura até aos dias de hoje.

Fred Perry viria a falecer a 2 de fevereiro de 1995 com 85 anos, mas o seu nome e o de Von Cramm estarão, para sempre, ligados à modalidade que nos une à semelhança de outros históricos da nossa modalidade.

Tiago Ferraz
Jornalista de formação, apaixonado por literatura, viagens e desporto sem resistir ao jogo e universo dos courts. Iniciou a sua carreira profissional na agência Lusa com uma profícua passagem pela A BolaTV, tendo finalmente alcançado a cadeira que o realiza e entusiasma como redator no Bola Amarela desde abril de 2019. Os sonhos começam quando se agarram as oportunidades.