Djokovic arrasa circuito e pede mudanças urgentes: «É preciso um reset total»

Por Nuno Chaves - June 30, 2026
Foto: EPA

Novak Djokovic até pode ter deixado a PTPA e até pode não estar em qualquer cargo no Conselho de Jogadoras no ATP, no entanto, não é por isso que deixa de estar atento ao que acontece.

E eis que o sérvio após entrar a vencer em Wimbledon falou sobre o estado atual do ténis e deixou muitas críticas, exigindo mudanças radicais para o bem da modalidade.

MUDANÇAS PARA BEM DO TÉNIS

As estatísticas mostram que há cada vez mais lesões e acredito que devemos analisar esta questão sob duas perspetivas. A primeira, que atualmente domina claramente o nosso desporto, é a comercial. Procura-se aumentar constantemente o valor económico do ténis através da criação de torneios mais longos, do prolongamento da sua duração e da introdução de novas competições num calendário que já está completamente sobrecarregado. Tenho o privilégio de poder escolher onde jogo e não estou tão exposto a este calendário tão exigente como a maioria dos jogadores. Mas compreendo perfeitamente as queixas de Carlos Alcaraz e de muitos outros quando dizem que passam demasiado tempo longe de casa. A mim também não me agrada.

COMEÇAR ‘DO ZERO’

Acredito que o ténis precisa de uma espécie de reset total. Os circuitos não estão a funcionar bem. Há muitas coisas a acontecer nos bastidores, demasiados conflitos entre os organismos que governam o nosso desporto e muito pouca união. Os Grand Slams serão sempre os pilares do ténis, mas os circuitos têm de repensar o calendário, os formatos e muitas das regras atuais. Todos os envolvidos têm de se sentar à mesma mesa e refletir sobre o que é melhor para o futuro deste desporto.

CRÍTICAS AOS MASTERS 1000 DE DUAS SEMANAS

Sempre fui contra este formato. Do ponto de vista comercial, gera mais valor, sim, mas a pergunta é: valor para quem? Principalmente para os proprietários dos torneios. Tentei explicar muitas vezes aos jogadores que deviam compreender bem o verdadeiro alcance desse acordo de trinta anos porque, na realidade, não estavam a obter tantos benefícios como pensavam. Esses quatro dias adicionais geram muito mais receitas para os torneios do que para os próprios jogadores. Muitos proprietários aproveitaram para construir novos estádios ou melhorar as suas instalações, mas esses investimentos acabam também por ser utilizados como argumento durante as negociações sobre a distribuição das receitas. Os jogadores apenas participam nas receitas do estádio durante as duas semanas em que decorre o torneio. Nas restantes cinquenta semanas do ano, todo esse dinheiro vai diretamente para o proprietário da infraestrutura. Quando fui presidente do Conselho de Jogadores tentei impedir esse acordo, mas não tinha poder suficiente para o fazer. Acabou por ser aprovado e agora temos de conviver com as suas consequências.

CORAGEM PARA MUDAR

Sempre defenderei a tradição e a história deste desporto, mas também temos de perguntar como conseguimos despertar o interesse dos jovens pelo ténis. Há alguns anos, a PTPA realizou um estudo que revelou que a idade média dos adeptos de ténis era de 61 anos. Com todo o respeito, precisamos de atrair um público muito mais jovem. Os jovens podem ver os Grand Slams, mas não vão ficar sentados quatro ou cinco horas por dia a assistir a um jogo. A capacidade de atenção mudou e temos de compreender como funciona o mercado atual. Na minha opinião, os torneios do circuito deveriam experimentar formatos mais dinâmicos, jogos de menor duração e propostas mais apelativas para os espectadores. Os Grand Slams são uma realidade diferente, mas fora deles devemos ter a coragem de inovar.

Jornalista na TVI; Licenciado em Ciências da Comunicação na UAL; Ténis sempre, mas sempre em primeiro lugar.
Bola Amarela
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