“O outro lado”: Medvedev fala das dificuldades que um tenista de alta competição enfrenta

Por Nuno Chaves - Fevereiro 25, 2026

Daniil Medvedev, qualificado para os quartos de final do ATP 500 do Dubai, fez uma profunda reflexão sobre aquele que considera ser o outro lado de um tenista profissional.

Apesar de reconhecer que o lado positivo joga muito a favor (como ganhar milhões ano após ano), o moscovita quis mostrar aos adeptos que os jogadores também passam por dificuldades, ainda que não sejam materiais.

O OUTRO LADO

A primeira coisa que as pessoas reparam em nós é que estamos ali fora a jogar ténis diante de milhares de pessoas e que, além disso, estamos a ganhar grandes quantias de dinheiro, especialmente aqueles que estão dentro do top 50 ou top 100 do ranking individual. É normal que o primeiro pensamento dessas pessoas seja: «De que é que se queixam? Não se deviam queixar, de todo.» Mas depois há a outra parte, aquilo que as pessoas não veem. Se falamos de ténis, não podemos falar apenas da competição, também temos de falar do preço que esta vida implica.

VIAGENS E ESTILOS DIFERENTES

Por exemplo, esta semana tivemos de vir a Doha, onde é verdade que a viagem não foi excessivamente longa desde o Dubai, por isso, desse ponto de vista, está tudo bem. No entanto, as bolas são diferentes neste torneio, os courts também são diferentes, parecem coisas estúpidas. O hotel é diferente, a cama é diferente, a almofada é diferente, tudo se torna um pouco mais difícil para o corpo. Talvez se isto acontecer uma vez não se sinta tanto, mas imagina ter essa sensação umas 40 vezes por ano. Esta é a realidade com que vivemos.

MAS HÁ MAIS

Falemos também da constante mudança de fuso horário, claro, e da mudança de alimentação. A comida em cada país é diferente, em cada lugar é uma coisa distinta. Tudo isto seria muito mais fácil de gerir se não tivesses um jogo para disputar no dia seguinte contra um adversário que quer ganhar esse jogo tanto quanto tu. No fim, se não ganhas, se perdes, as pessoas pensam que és mau. No ano passado lembro-me de ter disputado sete torneios consecutivos — será que tinha mesmo de o fazer? Pensamos que talvez possamos conseguir 100 pontos aqui e 200 pontos ali, queremos subir no ranking, e assim sucessivamente. Se não houvesse pontos em jogo, seria tudo mais simples, mas isso não vai acontecer.

UMA REALIDADE NÃO COMPREENDIDA

Tudo isto é o que as pessoas não entendem do ténis e por isso às vezes irritam-se. Podes chegar a um novo lugar e sofrer uma intoxicação alimentar que talvez não seja suficientemente grave para desistires, mas que é suficiente para te sentires mal nesse dia e perderes o jogo. Depois toda a gente dirá: como é possível perder por uma simples intoxicação alimentar? Esta é a parte mais difícil do ténis — tudo o que as viagens implicam, além de manter essa vontade de ganhar, aconteça o que acontecer.

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Jornalista na TVI; Licenciado em Ciências da Comunicação na UAL; Ténis sempre, mas sempre em primeiro lugar.