René Lacoste: o ‘crocodilo’ genial que deu ao ténis um novo estilo

Por Tiago Ferraz - Julho 24, 2020
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Lacoste é, porventura, uma marca bem conhecida de todos os nossos leitores, mas o Bola Amarela foi à procura da história do Homem que está por trás da ‘marca’ e que está, intimamente, ligado ao mundo do ténis: René Lacoste.

O francês nasceu em Paris no dia 2 de abril de 1904 e, até aos 18 anos, não tinha como dado adquirido que ia ser tenista. A mudança deu-se em 1922 quando René Lacoste decidiu dedicar-se única e exclusivamente ao ténis: esta foi uma tarefa que o gaulês levou muito a sério uma vez que, a partir desse momento, começou a treinar com muito afinco tendo como objetivo três metas essenciais: ganhar força, precisão e concentração.

O francês marcou ainda uma ‘rutura com o passado’ uma vez que ele próprio deu início ao chamado “estilo desportivo” no ténis: na época, os tenistas usavam calças largas, t-shirts de manga comprida, calças e cinto. Nesse sentido, René Lacoste procurou ir mais além e encetou esforços para que o conforto fosse o elemento primordial num equipamento de ténis e reduziu o formato das t-shirts de manga comprida para as transformar num pólo sendo que o elemento diferenciador e de identidade de Lacoste – o crocodilo – passou a estar presente anos mais tarde, mas já lá vamos.

Com efeito, os amigos mais próximos e a respetiva família do francês passara a vestir o pólo desenhado por Lacoste que passou a ser uma identidade bem presente na vida do gaulês.

E por que motivo é que Lacoste era conhecido como o ‘crocodilo’? A explicação é muito interessante: tudo aconteceu em 1923, em Boston, durante uma eliminatória da Taça Davis quando o capitão da seleção francesa, Allan Muhr, prometeu que lhe oferecia uma mala em pele de crocodilo caso Lacoste vencesse o encontro. O francês, então com 19 anos, viria a perder o duelo, mas a tenacidade, isto é, a persistência e o facto de Lacoste nunca desistir, fizeram com que um jornalista norte-americano o apelidasse de “crocodilo”. Quatro anos mais tarde, em 1927, o designer Robert George deu vida à ‘alcunha’ do francês e transformou os ‘blazers’ de Lacoste que passam a ficar com o símbolo já bordado. A partir desse momento, a ‘marca’ Lacoste passou a ser a primeira marca a usar um logótipo visível na roupa (o que era uma novidade para a época) e começou a surgir em campanhas publicitárias que passavam mensagens, verdadeiramente, sublimes a partir dos anos 30.

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Com tanto trabalho era evidente que o sucesso não ia demorar a surgir: apenas cinco anos depois de ter decidido que a sua vida ia passar só pelo ténis, René Lacoste ajudou a França a vencer a Taça Davis, por dois anos consecutivos, em 1927 e 1928. Como consequência dos bons resultados na Taça Davis Lacoste, juntamente com Henri Cochet, Jacques Brugnon e Jean Borotra, os “quatro mosqueteiros”, viram ser construído para a prática da modalidade o estádio onde atualmente se realiza do torneio de Roland Garros.

O francês voltou a dar uso à sua capacidade inata para inovar e acabou por ser pioneiro de alguns dos objetos mais importantes e úteis na vida de um tenista profissional e/ou amador. Para se ter uma ideia, Lacoste foi o homem que ‘deu vida’ à máquina que atira bolas de forma automática, que todos nós conhecemos, e que continua a ser um importante aliado nos treinos e na fase de preparação dos tenistas hoje em dia.

René Lacoste era visto como um homem muito perspicaz e estudava o jogo como ninguém o havia feito até então: em 1928, o próprio publicou um livro denominado de Ténis onde dava conselhos sobre a forma como os tenistas poderiam melhorar os seus movimentos: “Bata na bola e aperfeiçoe a pancada com o braço firme e dobrado”, revela, citado pela própria Lacoste.

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Imagem: Lacoste

O gaulês era um jovem irrequieto e que procurava, constantemente, a transformação da modalidade: Lacoste, que tinha como lema de vida o facto de nunca desistir, trabalhava sempre na procura de mais e melhor e, nesse sentido, encetou esforços para que fosse possível pensar e transformar o modo como as raquetas de ténis eram desenhadas. Com efeito, René Lacoste percebeu que seria melhor cobrir o cabo da raqueta com aquilo que todos nós conhecemos nos dias de hoje – o grip – para que fosse possível que os tenistas tivessem uma sensação de melhor aderência da mão à raqueta que muitas vezes não era fácil de controlar devido ao suor existente na mão que não permitia que os jogadores tivessem um contacto perfeito com a raqueta.

Como já é conhecido, René Lacoste não deixava nada ao acaso e, já depois de ter ‘revolucionado’ o cabo da raqueta, percebeu que teria que trabalhar, igualmente, a sua estrutura. E como é que o francês fez isso? A resposta está na criação, também da sua autoria, de uma raqueta mais leve e com a qual fosse mais fácil de jogar já que, até aqui, as raquetas usadas eram feitas de madeira e eram muito pesadas o que causava algum desconforto. Por isso, René Lacoste inventou a raqueta de metal em mais uma demonstração de que o gaulês procurava, constantemente, a perfeição. Todas estas invenções contribuíram (e muito) para que o ténis evoluísse enquanto modalidade e facilitaram imenso a vida aos tenistas da sua geração e das seguintes.

Tudo isto contribuiu para que René Lacoste se tornasse uma lenda também dentro dos courts: como vivia ‘avançado no tempo’, o francês conseguiu vencer 7 títulos do Grand Slam entre os anos de 1925 e 1929: Roland Garros e Wimbledon, em 1925; US Open em 1926 e 1927, novamente Roland Garros,  também em 1927, e voltou a ser feliz na relva de Wimbledon no ano seguinte para juntar já seis ‘majors’ ao palmarés. Estes resultados levaram o gaulês ao topo do ténis mundial e Lacoste foi mesmo número um do mundo entre 1926 e 1927. Dois anos depois, em 1929, René Lacoste voltou a vencer o torneio de Roland Garros. O Australian Open foi o único major que o francês nunca venceu.

Ainda assim, a promissora carreira de René Lacoste foi interrompida muito cedo e o francês abandonou os courts pouco tempo depois devido a complicações respiratórias provocadas por uma bronquite. Assim, a carreira do francês René Lacoste, que foi notável, mas que poderia ter sido muito melhor, chegava ao fim.

Após o final da carreira, Lacoste dedicou-se à sua marca e, nos anos 50, a Lacoste lançou a primeira gama de pólos com cor e desenvolveu as primeiras sapatilhas/ténis da marca no mercado internacional.

René Lacoste acabou por falecer a 12 de outubro de 1996 com 92 anos, mas continua a estar na “moda” e deu o seu contributo para que o ténis seja a modalidade que todos conhecemos nos dias de hoje à semelhança do que fizeram, por exemplo, Fred Perry e Von Cramm.

Tiago Ferraz
Jornalista de formação, apaixonado por literatura, viagens e desporto sem resistir ao jogo e universo dos courts. Iniciou a sua carreira profissional na agência Lusa com uma profícua passagem pela A BolaTV, tendo finalmente alcançado a cadeira que o realiza e entusiasma como redator no Bola Amarela desde abril de 2019. Os sonhos começam quando se agarram as oportunidades.