O que é o dispositivo que Sinner usa no braço enquanto treina para Wimbledon?

Por Rodrigo Caldeira - June 17, 2026

A imagem de Jannik Sinner a treinar em Monte Carlo tendo em vista Wimbledon, com um pequeno dispositivo colocado no braço, despertou a curiosidade de muitas pessoas, que se perguntaram o que era aquele aparelho usado pelo tenista de San Candido. Não se trata de nada invulgar, mas sim de um sensor conhecido como CGM (Monitorização Contínua da Glicose), utilizado para medir os níveis de glicose.

Perante essa imagem de Sinner a treinar com o dispositivo, surgiu uma questão lógica: porque precisaria um tenista de elite de monitorizar a glicose? A resposta não está necessariamente relacionada com qualquer doença, mas sim com uma tendência cada vez mais comum no desporto de alto rendimento: utilizar dados internos do organismo para compreender melhor o desempenho, a recuperação física e os momentos de quebra energética.

O contexto ajuda a perceber porque é que Jannik Sinner, aconselhado pela sua equipa médica, decidiu monitorizar os níveis de glicose para compreender melhor alguns episódios físicos que tem vivido. Após o problema sentido em Roland Garros, onde chegou a sentir-se desorientado, sem energia e com náuseas, vários meios de comunicação italianos revelaram que Sinner foi submetido a exames médicos em Itália para tentar perceber a origem desse colapso.

A Gazzetta dello Sport noticiou a realização de testes no J Medical, enquanto a Rai News referiu posteriormente exames mais aprofundados no Hospital San Raffaele, em Milão, antes do regresso do italiano a Monte Carlo para preparar Wimbledon. É provável que destes estudos tenha surgido a ideia de analisar a forma como a sua glicose reage a diferentes estímulos, procurando compreender o que acontece nos momentos em que o seu rendimento físico diminui, sobretudo em dias de muito calor.

O que mede realmente o dispositivo usado por Sinner?

O aparelho visível no braço de Sinner parece ser um sensor de monitorização contínua da glicose (CGM). Este dispositivo não mede diretamente a glicose no sangue a cada instante, mas sim a glicose presente no líquido intersticial, sob a pele, permitindo acompanhar a sua evolução ao longo do dia: aumentos após as refeições, quebras durante o esforço físico e respostas ao calor, ao stress ou à falta de recuperação.

Nas pessoas com diabetes, estes sensores são uma ferramenta médica amplamente utilizada. Já em atletas saudáveis, o objetivo é diferente: identificar padrões. Um tenista pode verificar se inicia um treino com reservas energéticas suficientes, se sofre quebras durante sessões prolongadas ou se determinados alimentos provocam picos e descidas acentuadas da glicose.

Porque pode ser útil para Sinner?

O ténis moderno exige esforços repetidos, partidas que podem prolongar-se durante várias horas e, muitas vezes, condições climatéricas extremas. Em Paris, o calor foi apontado como um fator importante, embora o próprio Sinner tenha deixado claro que não queria atribuir tudo apenas à temperatura.

É aqui que entra a ciência: uma insolação, uma desidratação parcial, uma reposição inadequada de hidratos de carbono ou uma resposta metabólica fora do normal podem provocar sintomas semelhantes, como fadiga súbita, tonturas, fraqueza ou perda de lucidez.

Não foi a primeira vez que Sinner passou por algo semelhante. Já tinha enfrentado episódios parecidos na Austrália, frente a Eliot Spizzirri, e também em Xangai, diante de Tallon Griekspoor, chegando inclusivamente a abandonar um encontro.

As evidências científicas sobre a utilização de sensores CGM em atletas indicam que estes dispositivos podem ajudar a personalizar estratégias nutricionais e a detetar episódios de hipoglicemia associados ao exercício. Contudo, os especialistas alertam que os dados não devem ser interpretados como uma verdade absoluta nem como um indicador direto do rendimento desportivo. As respostas da glicose variam bastante de pessoa para pessoa e exigem sempre enquadramento médico, nutricional e fisiológico para serem corretamente avaliadas.

Um passo adicional no controlo do rendimento

O que Jannik Sinner está a fazer não parece ser uma excentricidade, mas sim uma medida de prevenção. Depois de um episódio tão estranho como o que viveu em Paris, a sua equipa procura respostas através de diferentes análises: exames sanguíneos, avaliações cardíacas, monitorização do estado de hidratação, impacto do stress térmico, carga de treino, recuperação física e metabolismo energético.

O sensor de glicose surge como mais uma peça desse puzzle. Não ganha jogos, não evita por si só uma insolação e não substitui a avaliação médica, mas pode fornecer informações valiosas para ajustar a alimentação, os períodos de descanso e os treinos.

Num desporto em que uma pequena quebra física pode fazer a diferença entre vencer ou perder um Grand Slam, compreender a forma como o organismo reage internamente começa a ser tão importante como a capacidade de bater na bola.

Apaixonado por desporto no geral, o ténis teve sempre presente no topo da hierarquia. Mas foi precisamente depois de assistir à épica meia-final de Wimbledon em 2019 entre Roger Federer e Rafael Nadal, que me apaixonei e comecei a acompanhar de perto este fabuloso desporto. Atualmente a estudar Ciências da Comunicação na Universidade Autónoma de Lisboa.
Bola Amarela
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