Carlos Costa e lado desconhecido de Djokovic: «Nunca tinha visto nada como o Novak»

Por José Morgado - September 22, 2026
CarlosCosta-Djokovic

Há jogadores extraordinários, campeões de uma geração e atletas capazes de elevar o ténis a outro nível. E depois há Novak Djokovic. Carlos Costa, fisioterapeuta do sérvio, trabalha com uma das maiores figuras da história da modalidade e garante que continua a surpreender-se com a sua exigência, intensidade e capacidade para procurar constantemente novas formas de melhorar.

Em entrevista ao podcast ‘Diário de um Treinador’, de Frederico Marques, antigo treinador de João Sousa, um projeto do jornal A BOLA, o português abriu as portas aos bastidores do trabalho com Djokovic e revelou uma faceta menos conhecida do antigo número um mundial.

Carlos Costa tem uma carreira de enorme dimensão no circuito, tendo trabalhado com jogadores como Ana Ivanovic, Tommy Haas, Kevin Anderson, Dominic Thiem e Andrey Rublev, além de continuar ligado à seleção nacional da Taça Davis. Mas nenhum dos atletas que acompanhou lhe provocou a mesma impressão que Djokovic.

“Nunca tinha visto nada como o Novak Djokovic. A visão, o que põe todos os dias no court e a intensidade. Já tinha visto algo parecido, mas nunca com a consistência do Djokovic.”

Essa exigência começa nos mais pequenos detalhes. Djokovic quer saber tudo o que envolve a sua preparação e recuperação e não hesita em questionar a própria equipa quando considera que existe margem para melhorar. “Ele vai ao detalhe. O tempo que demoramos a dar-lhe a toalha… se há alguma coisa que não está programada, há atrito.”

Mais do que fazer perguntas, o sérvio chega a testar os elementos que o rodeiam para perceber se estão realmente a procurar as melhores soluções. “Ele chega ao ponto de criar testes dentro da equipa para perceber se estamos mesmo a procurar as melhores estratégias de recuperação, a fazer os melhores tratamentos.”

E os exemplos são particularmente reveladores. Djokovic observa o que fazem os seus rivais e quer perceber por que razão a sua equipa ainda não adotou determinadas metodologias. “Por exemplo, questionou-nos por que razão o Sinner faz trabalho ocular e nós ainda não fazíamos.”

Para Carlos Costa, trabalhar com Djokovic implica, por isso, estar numa aprendizagem permanente. “Eu estou sempre atualizado o mais possível. Vou inclusivamente tirando cursos com fisioterapeutas de outras modalidades, vou ‘beber’ a outras modalidades.”

Mesmo assim, o sérvio consegue frequentemente encontrar algo novo. “Por vezes, ele vê vídeos ou vê no balneário outros jogadores a fazerem outras coisas e está sempre à procura de saber por que razão não fazemos o mesmo. E a nossa resposta não pode demorar muito! Estamos sempre numa busca constante por melhorar.”

A intensidade não aparece apenas nos jogos. Segundo Carlos Costa, Djokovic transforma os próprios treinos em verdadeiros encontros oficiais, com uma concentração e um nível de exigência pouco comuns. “Ele dá muita importância à recuperação e à flexibilidade. Os treinos são como encontros. Nunca vi isso em qualquer outro jogador. É o mesmo nível de intensidade e de cuidado com tudo.”

O fisioterapeuta português destaca também a personalidade do sérvio e a forma como a cultura e o contexto em que cresceu podem ajudar a explicar parte dessa intensidade. “Os sérvios têm uma intensidade diferente. Às vezes, a maneira como se expressam é mesmo cultural e faz parte da maneira de serem. Ele tem uma personalidade mais forte do que o normal.”

E essa personalidade acaba por ser transportada para todos os momentos do trabalho. “A personalidade e a intensidade dele nos treinos são muito diferentes do normal e é isso que faz dele quem é. Ele tem um determinado mindset que consegue transportar para outro nível técnico e tático.”

Carlos Costa recorda ainda a primeira vez que trabalhou diretamente com Djokovic, em dezembro, e o impacto que teve ao perceber até onde ia a sua procura pela evolução. “A primeira vez que fui ter com ele, em dezembro, fiquei admirado com o que se estava a passar. Ele tinha acabado de contratar um biomecânico para melhorar o serviço e a direita.”

Não se tratava de uma contratação para cumprir calendário. Djokovic queria trabalhar imediatamente em aspetos específicos do seu jogo. “Trabalharam durante uma semana coisas específicas para que ele pudesse melhorar ainda mais. Ele está sempre à procura de melhorar, está sempre a convidar treinadores.”

Essa procura pela excelência também foi evidente quando Djokovic decidiu que queria conquistar a medalha de ouro olímpica. Carlos Costa conta que Viktor Troicki, atual treinador do sérvio e antigo capitão da Taça Davis, sempre considerou Djokovic um atleta de uma categoria diferente. “O seu atual treinador, Viktor Troicki, era o capitão da Taça Davis e confidenciou que o Novak foi sempre de outra categoria.”

O projeto olímpico foi levado ao extremo. “Faz mobilidade sozinho, faz coisas fora dos treinos que nós nem sabemos. Quando meteu na cabeça que tinha de ganhar a medalha de ouro, tudo foi planeado ao pormenor. Ele vivia para aquilo, desde que acordava até se deitava.”

A medalha de ouro conquistada em Paris, em 2024, acabou por representar uma das grandes conquistas da carreira do sérvio e um exemplo perfeito da forma como Djokovic encara os seus objetivos.

Mas existe ainda uma faceta de Djokovic que Carlos Costa considera pouco conhecida: a vontade de ajudar os outros jogadores. “Adora ajudar os mais jovens. Muitas vezes, para os treinos para dar conselhos a outros jogadores, mesmo do circuito.”

O português revela que o sérvio não guarda para si o conhecimento acumulado ao longo de mais de duas décadas no circuito. “Há pouco tempo, o Auger-Aliassime pediu-lhe uns conselhos e ele deu imediatamente. Com o Fonseca, a mesma coisa. As pessoas não têm noção do quanto ele ajuda outros jogadores.”

Apesar dessa disponibilidade para os outros, a exigência que coloca sobre si próprio permanece praticamente inalterada. E é precisamente por isso que as derrotas, sobretudo nos grandes torneios, continuam a ter um peso enorme. “O Djokovic vai ao limite a cada encontro. Para ele, não ganhar o US Open ou não chegar longe é uma grande derrota. Não está habituado a isso e é uma grande frustração.”

A explicação está também naquilo que Carlos Costa considera ser a convicção que Djokovic ainda mantém relativamente à sua capacidade para conquistar os maiores títulos. “Na cabeça dele, ele ainda sente que pode ganhar os grandes títulos e a verdade é que fez final da Austrália e meias-finais de Wimbledon.”

Nesta fase da carreira, porém, o sérvio parece ter aprendido a lidar de outra forma com esses momentos. Depois de uma derrota importante, a resposta nem sempre é regressar imediatamente ao court. “Normalmente, ele faz pausas após as derrotas nesta fase da carreira. Reflete, faz um reset e, quando depois volta, volta a full.”

Apaixonei-me pelo ténis na épica final de Roland Garros 2001 entre Jennifer Capriati e a Kim Clijsters e nunca mais larguei uma modalidade que sempre me pareceu muito especial. O amor pelo jornalismo e pelo ténis foram crescendo lado a lado. Entrei para o Bola Amarela em 2008, ainda antes de ir para a faculdade, e o site nunca mais saiu da minha vida. Trabalhei no Record e desde 2018 pode também ouvir-me a comentar tudo sobre a bolinha amarela na Sport TV. Já tive a honra de fazer a cobertura 'in loco' de três dos quatro Grand Slams (só me falta a Austrália!), do ATP Masters 1000 de Madrid, das Davis Cup Finals, muitas eliminatórias portuguesas na competição e, claro, de 16 (!) edições do Estoril Open. Estou a ficar velho... Email: jose_guerra_morgado@hotmail.com
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