Atualmente no 84.º posto da hierarquia mundial, Adolfo Daniel Vallejo está a atravessar o melhor momento da carreira e com isso tem feito história para o ténis paraguaio, apenas com 22 anos de idade, logrando feitos de enorme destaque para o seu país, que volta a ter um jogador dentro do top 100 mundial mais de… 20 anos depois.
O jogador sul-americano começou o ano com a conquista de dois títulos consecutivos no circuito Challenger (a somar aos três êxitos alcançados já em anos anteriores) depois de ter ficado muito próximo de garantir aquele que seria a entrada inédita num quadro principal de um torneio do Grand Slam, perdendo na terceira e derradeira ronda da fase de qualificação do Open da Austrália. Entretanto, Vallejo resgatou as primeiras vitórias em provas do ATP Tour (Santiago do Chile e Houston), estreou-se no top 100 mundial e, mais recentemente, brilhou na Caja Mágica de Madrid, onde ultrapassou o qualifying para só parar na terceira ronda, batendo jogadores como Grigor Dimitrov e Learner Tien.
Em entrevista ao site Punto de Break, o antigo número um mundial de júniores, que tem já assegurada a estreia em quadros principais de Majors para Roland-Garros e que este domingo se sagrou vice-campeão do fortíssimo Challenger 175 de Valência, abordou diversos temas de elevado grau de interesse, como por exemplo a experiência vivida na Rafael Nadal Academy e os primeiros tempos de trabalho ao lado do treinador argentino Andrés “Gringo” Schneiter.
TEMPOS PASSADOS NA RAFA NADAL ACADEMY
Foi um ciclo. No fim das contas, é uma academia. Conforme você envelhece, procura naturalmente algo mais pessoal. Foi uma experiência maravilhosa. Fiquei lá quase um ano e gostei muito. Nós, sul-americanos, amamos a Espanha por causa da hospitalidade e da comida, então aproveitei bastante. Aprendi tantas coisas. É uma cultura completamente nova e diferente da minha. Conheci pessoas muito importantes como Rafa Nadal e Toni Nadal, e vivi momentos incríveis com Dani Rincón e Abdullah Shelbayh. Foi uma experiência enriquecedora. Viver na Europa é muito diferente de viver na América do Sul. É uma lembrança maravilhosa que guardarei para sempre.
GRANDE EVOLUÇÃO COM ANDRÉS SCHNEITER
Não é a primeira vez que ele faz isto. Tem algo especial. Desde que começamos em setembro, as coisas têm corrido muito bem. Eu sou o tipo de pessoa que pode discutir com você no início se discordar, mas acabo sempre por te ouvir. Isso é o mais importante: ouvir o treinador e colocar se no lugar dele. O resto dependia dele. Muitos jogadores já fizeram esse trabalho com ele e adaptaram se muito rapidamente. Ele é um ótimo treinador. A diferença entre antes e depois é que eu era muito desorganizado em campo. Tivemos que montar esse quebra-cabeça. Eu fazia muitas coisas ao mesmo tempo e nenhuma funcionava. Quando começamos com o ‘Gringo’ e também com o Ramón Delgado, que me ajuda no Paraguai, conversamos muito sobre táticas, sobre como eu deveria jogar. Quando se começa a entender o jogo, não se frustra mais com certas decisões porque já sabe se elas estão certas ou erradas.
PROCESSO LONGO E DEMORADO
Foi definitivamente muito difícil. Quando penso em tudo o que fiz… a jornada pareceu interminável. Mesmo quando se ganha torneios, há muito stresse diariamente, muito desgaste mental e físico. Houve semanas em que estive à beira do colapso, mas no final, consegui superar. Este ano, por exemplo, perdi na terceira ronda do qualy na Austrália, o que foi um golpe duro, mas na semana seguinte venci o Challenger de Itajaí. E na semana seguinte, venci novamente no Challenger de Concepción. Se eu tivesse que passar por tudo isso de novo, seria muito difícil, então espero ficar aqui por muito tempo.
ESTREIA NO TOP 100 MUNDIAL
É o sonho de uma vida inteira. Quando começas a jogar tênis, a primeira coisa que sonhas é estar entre os 100 melhores. A partir daí, define se novas metas, mas o primeiro passo é chegar ao top 100. Esse era o meu objetivo. Eu nunca disse que queria estar entre os 50 melhores ou ser campeão de um Grand Slam. A única coisa que eu dizia era que queria estar entre os 100 melhores. Depois de alcançar isso, é preciso um tempo para definir novas metas e não estagnar. Agora estou extremamente motivado.
OBJETIVOS PARA O FUTURO
Sou muito jovem, sempre soube que estar entre os 100 melhores era o primeiro passo, então agora gostaria de estar entre os 50 melhores. Acho que posso conseguir. É algo muito alcançável ao longo da minha carreira. Sempre sonhei em ter uma carreira longa e permanecer entre os 100 melhores por vários anos. Talvez eu me veja a oscilar entre o top 80 e o top 20, não sei, mas quero me manter no top 100 por muito tempo. Sei que é muito difícil, mas acho que tenho o que é preciso para conseguir. No momento, estou em 80º lugar no ranking mundial e não tenho pontos a defender até o US Open. […] Sejamos realistas, eu não vou ser o número um do mundo, mas gostaria de sonhar em chegar ao top 10. Isso exige muito esforço, muita sorte e muito trabalho duro. Só chegar ao top 10 já seria incrível, mas eu nunca sonhei em ser o número um ATP, nunca disse isso porque considero impossível. Outros já disseram, mas estamos a falar de um objetivo que está ao alcance apenas de alguns privilegiados, e eu não tenho esse talento. […] É evidente que devo ter algo especial, porque sou apenas o terceiro paraguaio na história a entrar no top 100. Entre milhares e milhares de paraguaios, apenas três chegaram ao top 100, então terei algumas boas vantagens no court.
MAIS VALIAS COMO JOGADOR
Não tenho uma pancada diferenciadora, mas às vezes consigo ser um jogador sem pontos fracos, sem falhas. Abro bem o campo, crio bons ângulos e mudo de direção com eficiência. Consigo subir à rede para finalizar os pontos, mas preciso melhorar muito o meu serviço, embora geralmente o varie bem. Não há nada que eu faça particularmente bem, mas também não há nada que eu faça terrivelmente mal. Obviamente, tenho que lutar como um cão para vencer cada partida, caso contrário, não vencerei ninguém. Há dias em que posso vacilar mentalmente, mas atualmente os meus rivais devem me ver como um adversário muito difícil. Venho mostrando semana após semana que sou mentalmente forte. Eles sabem que vou correr atrás de cada bola, que vou lutar até o fim. É preciso estar muito bem preparado mentalmente para fazer isso.
PESO DA BANDEIRA
Sempre adorei fazer parte da história do ténis paraguaio. Se eu fosse espanhol, seria apenas mais um jogador, mas sendo paraguaio, já sou o terceiro melhor jogador da história do meu país. Isso dá me uma motivação extra. É maravilhoso ter tantos fãs. Tenho muita sorte de ter tanto apoio, é uma honra absoluta. Espero que, com o passar dos anos, eu possa continuar crescendo e, eventualmente, me tornar o melhor atleta da história do Paraguai. Sei que é incrivelmente difícil. Tenho imenso respeito pelo que Victor Pecci conquistou: finalista em Roland Garros em 1979 e semifinalista novamente em 1981, além de ter alcançado o 9º lugar no ranking mundial, sua melhor posição na carreira. É uma façanha muito difícil de igualar mas gostaria de entrar nessa discussão eventualmente. Gostaria de ter uma carreira muito mais longa. Com sorte, talvez eu consiga chegar ao top 10 ou top 20 para participar do debate. Agora, uma final ou uma semifinal em Paris? Isso vai ser muito difícil de igualar.
SERENAR AS EXPECTATIVAS E IR PASSO A PASSO
Sou muito realista. Em Genebra, o objetivo é passar pelo qualifying, e depois o que acontecer, acontecerá. O mesmo vale para Roland Garros; não sonho em chegar às quartas de final, apenas passar para a terceira rodada seria o melhor que eu poderia esperar. O mesmo se aplica aqui em Valência; não vou dizer que o plano é ganhar o título, este é um torneio muito difícil. Se eu tiver que sonhar com um torneio, gostaria de chegar à terceira rodada em Roland Garros… e a partir daí, ir ainda mais longe. Sempre estabeleci metas alcançáveis. Chegar ao top 50? Acho que consigo, até este ano, se os resultados forem favoráveis. Sou alguém que joga bem, mas não sou um talento fenomenal. O Rafa Jódar era o 800º do ranking há um ano e agora está no top 30, mas essa não é a realidade para todos. A minha realidade é que Madrid foi o meu primeiro Masters 1000, onde passei pelo qualifying e cheguei à terceira rodada e isso para mim é incrível.
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