À conversa com o diretor do Rio Open: «Demorei três anos a convencer o Zverev a vir»

Por José Morgado - Fevereiro 26, 2025
Lui-Carvalho

RIO DE JANEIRO. BRASIL. Sebastian Baez conquistou a edição de 2025 do ATP 500 do Rio de Janeiro, que bateu todos os recordes em termos de afluência de público. Ao fim de 11 edições, o maior torneio da América do Sul é um evento completamente consolidado no calendário — e no gosto dos fãs de ténis — mas o o diretor do torneio, Lui Carvalho, admitiu-nos em entrevista exclusiva que as dificuldades continuam a ser muitas no que diz respeito a convencer jogadores internacionais a jogarem em terra batida nesta altura do ano. A possível mudança de piso e a importância de João Fonseca nesta nova fase do evento foram alguns dos temas desta conversa.

SEGUNDA DÉCADA COMEÇA COM FONSECA-MANIA

Estamos a começar a segunda década do torneio da melhor maneira possível. Sempre sonhámos ter um João Fonseca. Respeitamos muito todos os brasileiros que jogaram este torneio, desde Bellucci, ao Thiago Monteiro, ao Rogério Dutra Silva, mas agora o Fonseca está a dar uma nova forma ao evento. O evento já tinha entrado no gosto das pessoas, os bilhetes estão constantemente esgotados pré-João Fonseca, mas é especial poder ter este jogador. Só potencia ainda mais. Eu nunca tinha visto nada assim em termos de popularidade e crescimento do ténis no Brasil. Nem na época do Guga. É verdade que na altura dele não havia redes sociais, mas o crescimento da popularidade e da procura do ténis no Brasil é enorme e é muito bom fazer parte desse processo.

PROCURA DE BILHETES É CADA VEZ MAIOR

A procura tem crescido nos últimos anos. Até pelo efeito da Bia. O crescimento da Bia Haddad Maia teve impacto na presença do ténis na imprensa e isso tem um impacto positivo no Rio Open também. O número de praticantes cresceu muito, o número de fãs também. Os clubes estão cheios, 40 por cento das pessoas que vão ao ATP Masters 1000 de Miami são brasileiros. É um desporto que caiu no gosto de muita gente aqui no Brasil. O João Fonseca é a cereja no bolo.

DIFÍCIL TRAZER JOGADORES PARA O GOLDEN SWING

Este é o primeiro ano desde que Doha e Dallas subiram a ATP 500. Nós ficámos preocupados porque é mais concorrência. Estando em terra batida temos mais dificuldades para atrair os jogadores de topo, que preferem manter-se em piso rápido. Aos poucos estamos a entender o que vai acontecer no futuro. Em Doha esta semana tivemos oito top 15. Este movimento do ATP causou dano ao Golden Swing e para nós em particular. Buenos Aires até sai beneficiado porque sendo um 250 acaba por ter o mesmo elenco do que nós porque os jogadores que jogam um, jogam outro.

MUDANÇA DE PISO TEM ‘ESBARRADO’… NOS JOGADORES

Se este torneio fosse em piso rápido seria muito mais fácil trazer jogadores de topo. Não viraria Doha, mas conseguiríamos trazer 4 ou 5 top 15 seguramente. Isso ajudaria a elevar o patamar do torneio. Não é uma questão fácil, mas vamos continuar a tentar. Da nossa parte há uma vontade. Eu sou crítico com o ATP quando tenho de ser, mas a ATP são os jogadores e torneios. Quem resiste à mudança de piso são os jogadores, que não querem perder estes torneios de terra batida. Vamos tentar sentar todos na mesa e chegar a uma boa decisão para todos.

JOGADORES DEMORAM ANOS A NEGOCIAR…

É um trabalho longo. Negociei com o Zverev desde 2022. Eu negoceio tenistas com anos de antecedência. É necessário muito tempo para convencê-los. Não é fácil, mas temos conseguido contornar e penso que oferecemos sempre um bom produto. O Alcaraz, por exemplo, cresceu em terra batida e foi mais fácil chegar a ele num primeiro momento. É preciso ser criativo, tentar convencê-los e ter alguma sorte. A experiência deles aqui ajuda a convencê-los a voltar. Quanto melhor experiência, dentro e fora de campo, eles têm, é melhor. Estamos a negociar alguns nomes. Alguns regressos e algumas caras novas. Mas não posso dizer quem são…

CONTRATO DE ZVEREV FOI DE APENAS UM ANO

Com o Zverev fechámos apenas um ano. Fazemos contratos de 1, 2 ou 3 anos. Normalmente o primeiro contrato é de um ano. Foi assim com o Alcaraz — 1 +3 –, por exemplo. Os jogadores gostam de testar.

APOSTA NEXTGEN É PARA MANTER

Apostar nas NextGen é uma aposta. Trouxemos o Alcaraz, o Ruud, o Auger-Aliassime, o Shang, o Jarry quando eram todos muito jovens. O Fils também, mais recentemente. Aí cria-se uma relação com o torneio e ajuda a trazê-los de volta. É uma estratégia que nem sempre funciona, mas é uma das nossas propostas para os próximos anos.

FELIZ POR TER FONSECA NO FUTURO… MAS COM PRUDÊNCIA 

É muito bom ter o João Fonseca. É preciso cuidado porque ele é uma promessa e nem sempre é fácil estar na pele dele. Só tem 18 anos e será um longo percurso. Ele tem recebido dicas de outros jogadores sobre como lidar com estes momentos e é importante ter a cabeça no lugar. O ténis não é linear, mas torcemos para que ele seja um sucesso e possa sê-lo aqui.

WTA NO RIO… É CENÁRIO IMPOSSÍVEL

WTA aqui é difícil. Misto não é possível porque teríamos de jogar a horas de calor insuportável.  Mas temos ideia de voltar a trazer um WTA, talvez noutra cidade.

Apaixonei-me pelo ténis na épica final de Roland Garros 2001 entre Jennifer Capriati e a Kim Clijsters e nunca mais larguei uma modalidade que sempre me pareceu muito especial. O amor pelo jornalismo e pelo ténis foram crescendo lado a lado. Entrei para o Bola Amarela em 2008, ainda antes de ir para a faculdade, e o site nunca mais saiu da minha vida. Trabalhei no Record e desde 2018 pode também ouvir-me a comentar tudo sobre a bolinha amarela na Sport TV. Já tive a honra de fazer a cobertura 'in loco' de três dos quatro Grand Slams (só me falta a Austrália!), do ATP Masters 1000 de Madrid, das Davis Cup Finals, muitas eliminatórias portuguesas na competição e, claro, de 16 (!) edições do Estoril Open. Estou a ficar velho... Email: jose_guerra_morgado@hotmail.com