11 anos de Hawk-Eye: Os 5 casos mais controversos

Foi há onze anos (e cerca de três semanas) que o Olho de Falcão entrou de rompante pelos courts do Miami Open, prometendo mais verdade à modalidade e eficazes melhorias na relação entre jogadores e árbitros, que tantas vezes entravam em conflito por culpa de decisões duvidosas.

Houve quem se deixasse convencer facilmente pelo Hawk-Eye, mas nem todos viram com bons olhos o olho que apregoava ter melhor visão que vários pares de olhos juntos. Na verdade, muitos foram os que não acreditaram cegamente no veredito do sistema eletrónico de arbitragem assim que foi implementado, no dia 22 de março de 2006.

Para assinalar uma década e um ano de Challenge, recordamos alguns casos em que o Hawk-Eye, o afamado sistema eletrónico de arbitragem que era suposto tornar-se numa bem-vinda e conveniente muleta para os árbitros, mais não fez do que semear a discórdia.


1. “A bola é muito dentro” – 2004

Se Paul Hawkins foi o pai, pode dizer-se que Serena Williams e Jennifer Capriati foram as mães, e, por que não, Mariana Alves a madrasta, do sistema eletrónico de arbitragem. Isto porque foi o encontro entre as duas norte-americanas, no Open dos Estados Unidos, em 2004, arbitrado pela portuguesa, que despoletou a necessidade de se introduzir de forma oficial o Hawk-Eye.

Na altura, Serena foi confrontada com algumas decisões que lhe deixaram muitas dúvidas, mas foi uma esquerda paralela em cima da linha que acabaria por funcionar como a verdadeira gota de água. “Mas o que é que se está a passar?”, questionou Serena. “Desculpa? A bola foi muito dentro. Mas que raio vem a ser isto? A bola não foi fora. Estão a brincar comigo? Estou a dizer-te, a bola não foi fora. A bola é muito dentro”, protestou, perante uma determinada Mariana Alves, que viria a ficar mal na fotografia instantes depois. As imagens televisivas repetirem a jogada em câmara lenta, graças às câmaras de alta velocidade apelidadas de Mac Cams (em homenagem a John McEnroe), revelando que a mais nova das Williams estava certa. Uma decisão errada que serviu para os órgãos de gestão dos circuitos começarem por abrir os braços ao novo mecanismo eletrónico.


2. “Eu vi a marca que todos viram” – 2007

Um ano depois de chegar aos courts de forma oficial, no Open de Miami 2006, o Hawk-Eye foi apanhado a ser desonesto para com um dos grandes nomes do ténis, Rafael Nadal. Foi nos quartos-de-final do torneio do Dubai, diante de Mikhail Youzhny. O score marcava 6-5 no tie break do primeiro set, a favor do russo, que decide arriscar tudo numa esquerda bem junto à linha lateral. O árbitro de cadeira chama fora e Youzhny não hesita em pedir o “challenge”, que dá a bola dentro. Estava instalado o caos. “Eu disse ‘olha, a bola foi fora’ e o árbitro disse ‘eu sei’”, explicou Nadal no final do encontro. “A marca continuava lá”, acrescentou o espanhol, que viu Youzhny dar-lhe razão: “eu vi a marca que todos viram… Fiquei surpreendido quando o Hawk-Eye mostrou a bola boa”. Resultado: o set point confirmou-se, o jogador russo venceu o encontro e Nadal deixou o alerta. “Um dia teremos de questionar a verdadeira fiabilidade do Hawk-Eye”.

 

Por um milímetro se ganha, por um milímetro se perde. O ponto de vista de Nadal não é descabido de todo, quando visto à luz das declarações dos próprios criadores do Hawk-Eye, que admitem que existe uma margem de erro entre os 3 e os 4 milímetros. Em 2013, o The Guardian publicou um artigo em que explicava que a velocidade da bola pode tornar-se num entrave ao sucesso da reprodução da jogada, já que a trajetória da bola é feita por estimativa. Se a bola vai com muita velocidade, o Hawk-Eye grava duas imagens sucessivas, uma antes e outra depois do ressalto, o que dá uma importância acrescida à margem de erro.


3. “Todos deviam estar no mesmo barco” – 2016

As opiniões dividem-se, mesmo depois de terem passado onze anos desde que o olho de falcão foi implementado no ténis. Arnaud Clément continua fazer parte do grupo dos contra, mas por motivos que ultrapassam as lacunas técnicas. Para o ex-jogador francês, o Hawk-Eye começa por falhar mesmo antes de ser acionado. “Não percebo por que razão o sistema é usado no court central e não nos outros. Percebo as razões técnicas, mas basicamente, todos deviam estar no mesmo barco”.


4. “Estás a brincar comigo?!” – 2015

Se há alguém que tem razão para ficar de pé atrás com o Hawk-Eye é Victoria Azarenka. A bielorrussa viu o sistema eletrónico de arbitragem virar-lhe as costas quando mais precisava dele, no torneio do Qatar, há dois anos, numa altura crucial do set inaugural. No segundo serviço, quando perdia por 3-5, 30-30, Wozniacki manda a bola à tela, que pinga para fora do retângulo de serviço, mas nem o juiz de linha nem o árbitro de cadeira reagem. Azarenka vê-se obrigada a pedir o “challenge”, mas do “challenge” nem sinal. “Não temos “challenge”, temos de manter a chamada”, informou o árbitro, que deu à dinamarquesa a possibilidade de voltar a servir, em vez de lhe atribuir uma dupla-falta. Azarenka nem queria acreditar no que estava a acontecer: “estás a brincar comigo? Tu estás a brincar comigo?!”. A bielorrussa ainda tentou apelar ao sentido de justiça da sua adversária, mas Wozniacki aproveitou a visita do supervisor ao court para… pedinchar um primeiro serviço. Só visto:

 


5. “Podes ser assim tão estúpido?” – 2012

Open da Austrália 2012. Dois sets para cada lado e oito igual no quinto set. John Isner está ao serviço e não se faz de rogado: envia uma bomba para o lado de lá do court. O juiz de linha vê a bola bater fora da zona de serviço, mas o árbitro de cadeira Kader Nouni decide atribuir um ás ao norte-americano. Do outro lado do court estava um efervescente David Nalbandian, que não demorou a reagir quando lhe foi negado o “challenge”, por demorar demasiado tempo a decidir-se pelo sistema eletrónico de arbitragem. “Quantas vezes é que podemos verificar a marca antes de pedir o Hawk-Eye? Alguém responsável pelos árbitros ou pelo ATP pode explicar esta situação? Mas o que é isto? Estamos num Grand Slam”. No final do embate, Nalbandina continuava a ser um homem em fúria. “É ridículo jogar este tipo de torneios com este tipo de árbitros. Oito igual, com break point. Podes ser assim tão estúpido para fazeres isso num momento destes? O que é que os árbitros querem? A imprensa, um nome, a sua fotografia no jornal amanhã? Incrível”. Sem surpresas, Nalbandian perdeu, além da cabeça, o encontro.


8 Curiosidades sobre o Hawk-Eye

1. Foi criado por um jovem matemático chamado Paul Hawkins, em 2001. O seu principal objetivo era levar a tecnologia em primeiro lugar ao críquete, mas o ténis adiantou-se.

2. São precisas pelo menos seis câmaras espalhadas pelo court e ligadas por computador para termos acesso ao Hawk-Eye. Depois, não são necessários mais do que alguns segundos para o computador ler em tempo real o movimento da bola em cada uma das câmara e reproduzir uma representação 3D da trajetória da bola.

3. Antes de ser apresentado oficialmente ao ténis, um modalidade encarada como sendo algo conservador, o Hawk-Eye foi testado durante vários anos.

4. John McEnroe foi um dos primeiros jogadores a usar o Hawk-Eye. Em dezembro de 2005, o norte-americano foi convidado a testar a invenção durante um encontro-exibição que teve lugar no Royal Albert Hall, Londres.

5. Algumas semanas mais tarde, a Taça Hopman, em Perth, Austrália, tem autorização para usar a tecnologia, mas é apenas em março, no torneio de Miami, que as decisões tomadas pelo Hawk-Eye passam a ter o peso que têm hoje.

6. O US Open foi o primeiro evento do Grand Slam a adotar a sistema eletrónico de arbitragem, em 2006, seguindo-se o Open da Austrália meses mais tarde.

7. Houve quem amasse de imediato o novo mecanismo de arbitragem mas houve, por outro lado, muitos jogadores que desconfiaram das suas boas intenções. Marat Safin revelou-se, de imediato, o líder da oposição: “Sou totalmente contra. Quem foi o génio que teve uma ideia tão estúpida?”. Roger Federer também não ficou fã: “é um desperdício de dinheiro”.

8. Antes de ser terem estabelecido os três challenges por set, para cada jogador, com mais um em caso de tie break, cada torneio tinha autoridade para estabelecer as suas próprias regras quanto ao número de vezes que podia ser utilizado.

Sobre o autor
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Descobriu o que era isto das raquetes apenas na adolescência, mas a química foi tanta que a paixão se mantém assolapada até hoje. Pelo meio ficou uma licenciatura em Jornalismo na Escola Superior de Educação de Viseu e um Secundário dignamente enriquecido por cadernos cujas capas ostentavam recortes de jornais de Lleyton Hewitt. Entretanto ganhou (algum) juízo, um inexplicável fascínio por esquerdas paralelas a duas mãos e um lugar no Bola Amarela. A escrever por aqui desde dezembro de 2013.

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