Palavra de João Cunha e Silva #3: Que torneios jogar

Uma maior experiência vai-me, naturalmente, trazendo mais sensibilidade, pela quantidade de atletas, jovens e não só, que me vão passando pelas mãos. Aliada aos muitos anos de jogador que tive, há uma coisa fundamental, que se me afigura essencial, para quem quer aprender a jogar ténis: gostar de jogar! Independentemente de ganhar, é preciso gostar de jogar!

É claro que sempre haverá aquele velho conceito de: “O mais importante não é ganhar, é participar!… Até se perder!” Mas isto é para aqueles que são profissionais, ou quase! Que fazem disto modo de vida. E até para esses… pois todos continuam a necessitar constantemente de melhorar. É certo que, numa modalidade em que não existem empates, quando se joga em competição, é melhor ganhar. Sem dúvida! Mas e aonde? Em tudo o que seja competição, responderão uns.

Mas e que torneios eleger?

Quando se trata da evolução de um jovem, que se iniciou na modalidade e pretende melhorar e competir, é necessário gostar do desafio do confronto, sem certezas, mas também da noção da necessidade de treinar e de querer jogar bem.

Vejo, muitas vezes, jovens e os seus pais, bem intencionados, quererem jogar torneios oficiais, apenas para “ganhar”. O que me parece um erro! E não pretendo, eu que fui profissional tantos anos, desvalorizar a importância da vitória. Pelo contrário! Mas sim contribuir para estimular os jovens em particular, para que aqueles que optem por jogar torneios oficiais, tenham uma correta mentalidade acerca de dois conceitos importantes:

  1. Que não é, como tantos pensam, apenas treinando com melhores que se evolui.
  2. Pelo contrário, é fundamental que jogadores de nível idêntico se confrontem muitas vezes em competição, torneios.

O primeiro conceito é, por vezes, difícil de “passar” aos mais jovens. Mas é importante perceberem que, se por um lado, por essa lógica os melhores não quereriam treinar com eles, também devem perceber o quanto é importante, para o seu desenvolvimento como jogadores, saberem aproveitar igualmente o treino com os de valor idêntico, procurando sobreporem-se e com os de teoricamente valor inferior, tentando impor o seu nível, treinando mais a concentração, onde a motivação é menor e testando as suas capacidades.

Os suecos, durante muito tempo uma potência do ténis mundial, num país com uma população idêntica à nossa, tinham e têm uma máxima muito interessante, que é: 25-50-25. Quer isto dizer que os jogadores em desenvolvimento devem treinar 25% do tempo com pessoas que joguem a um nível inferior ao seu, 50% com pessoas de um nível idêntico e, de novo, 25% de  um nível superior.

É óbvio que isto é sempre teórico!

Eu não sei se é 25%, se é 20% ou 15%, mas tenho a certeza que deve haver um equilíbrio entre as situações. E qualidade específica para cada indivíduo!

Mesmo porque se assim não fosse, o n.º 1 do mundo então não teria com quem treinar. Apenas como exemplo, cito o caso do brasileiro Gustavo Kuerten, jogador do top mundial e ex-n.º 1, que fazia, normalmente,  as suas pré-temporadas no Brasil, naturalmente com o seu treinador, mas com outros jogadores bastante inferiores em ranking, que convidava, ou a ele se juntavam, alguns deles mesmo juniores brasileiros. E há outros tantos casos semelhantes no top…

Existe e exige, no entanto, obviamente, uma preparação específica, cuidada, da parte de cada um e do seu treinador / equipa técnica.

Quanto ao segundo conceito, aqui sim, é de grande interesse que o jogador em progressão se confronte regularmente com adversários de nível idêntico. Pois é verdade que se progride mais se, em cada encontro, se tiver de “travar uma batalha”.

Se os encontros entre os jogadores forem sistematicamente desnivelados em resultado, aqueles que “levam o troféu para casa” experimentam uma satisfação muito grande. Legítima, por sinal! Mas esse tipo de vitórias também lhes deve fazer ver que, provavelmente, devem procurar um nível de torneios que lhes permita outro tipo de confrontos. Aí, se calhar, vão ganhar menos. Mas se ganharem, terá mais valor! E irão, a médio prazo, progredir mais!

Aqui, sem dúvida, os torneios sociais de Clube podem ter um papel preponderante. Principalmente para aqueles que sentem ainda não ter nível competitivo para jogar em torneios oficiais.

Assim, considero que o essencial, às vezes, não é jogar esta ou aquela categoria. E sim procurar um nível de torneio adequado. Da maneira como são efectuados os rankings, não só no nosso país, mas também a nível internacional, é natural que os jogadores em último ano da categoria devam competir em vários torneios da faixa etária seguinte. Para obterem ranking e consequentemente acesso a melhores desses torneios no ano seguinte. E parece-me correto, desde que os melhores se continuem a encontrar várias vezes, sem medo da pressão e sim aprendendo a saber como lidar com ela e os outros a mesma coisa, nos diversos cenários psicológicos, etc.

Será a melhor contribuição para a melhoria dos jovens e do nível médio do país.

ATÉ À PRÓXIMA!

João Cunha e Silva


A Escola / Academia de Ténis de João Cunha e Silva

A Escola de Ténis CETO/João Cunha e Silva surgiu em 2000, altura em que João Cunha e Silva, o mais internacional de todos os jogadores portugueses na Taça-Davis e ex-número 1 mundial de juniores em 1985, abandonou a sua carreira de jogador profissional. Com instalações em Nova Oeiras, sempre vocacionada para o ensino e prática do ténis.

Passados 15 anos, Cunha e Silva continua à frente da Escola / Academia de Ténis com uma equipa técnica de grandes profissionais, a formar grande quantidade de jovens e a treinar excelentes jogadores. Alguns dos quais com resultados muito significativos em provas ATP, WTA, ou ITF. De entre os muitos e excelentes jogadores de ténis que a Escola / Academia CETO/João Cunha e Silva já formou, desenvolveu e aperfeiçoou, destacam-se pelos seus resultados relevantes tanto a nível nacional como internacional, Frederico Gil, Rui Machado, Leonardo Tavares, Pedro Sousa, João Domingues, Gonçalo Nicau, Gonçalo Pereira, Martim Trueva, Gonçalo Falcão, Francisco Dias, Felipe Cunha Silva, Bárbara Luz, Catarina Ferreira, Elitsa Kostova, Patrícia Martins, Anna Savchenko, Joana Valle Costa, Sofia Sualehe, Carlota Santos, Claudia Cianci, Rebeca Silva.

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Sobre o autor
- Licenciado em Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. Jornalista da GQ Portugal e colaborador do Bola Amarela desde novembro de 2011, pouco tempo depois de começar a seguir mais atentamente o mundo do ténis. Pretende nunca mais parar.

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