Palavra de João Cunha e Silva #5: O Treino Individual e Standard [parte I]

Este tema aparece fruto de um trabalho por mim elaborado há algum tempo, no início da minha carreira de treinador. Que, com o passar dos anos e a experiência, é absolutamente actual e ganhou ainda mais convicção.

O tema em questão tem em consideração o facto de eu ter sido jogador profissional, a minha experiência e o que eu sinto agora, como treinador com experiência adquirida, enfrentando alguns dos mesmos problemas mas tendo em consideração os jogadores com quem trabalho. Mas também, o facto de ser português, estar a viver em Portugal e que provavelmente, alguns dos problemas e dúvidas que eu possa ter, também outros, noutros países, enfrentarão. Penso que, olhando para os países mais desenvolvidos (falando a nível de ténis, claro), posso copiar, adaptar e até ignorar, o que acredito ser o mais indicado para a nossa realidade e os “meus” (nossos) jogadores.

Sei, obviamente, que este tema não é um tema novo e que vários treinadores por esse mundo fora, já muito terão pensado sobre isto. Nomeadamente, aqueles que foram jogadores profissionais. Muito poderia ser dito sobre este tema e sobre cada capítulo também. Como já referi, decidi dividir o trabalho em 7 capítulos. Contudo, é por vezes difícil estabelecer fronteiras, ou mesmo diferenças, entre eles.

Eu joguei muito! Mas uma coisa que cedo tive foi a sensibilidade de perceber, mesmo quando era ainda jogador profissional, que um dia, treinando outros, todo o conhecimento que ia adquirindo e de que hoje disponho jamais deveria ser transmitido a diferentes jogadores exactamente da mesma maneira.

Então, como temas, elegi sete, dos quais, os três primeiros são:

  • QUANDO (o treino pode e deve ser individualizado ou standard);
  • A IMPORTÂNCIA DAS CARACTERÍSTICAS DO JOGADOR;
  • DESENVOLVIMENTO TÉCNICO E TÁCTICO EM FUNÇÃO DO PERFIL DO JOGADOR (CARÁCTER, ETC.).

Quando (o treino pode ser individualizado ou standard)

A maneira como eu quis abordar este tema foi tendo presente o ténis em Portugal, também. E, portanto, os problemas que a este nível possam existir nos países menos desenvolvidos em ténis e que alguns deles, já enfrentaram no passado.

Algo que me preocupa e me mantém constantemente alerta é a sensibilidade e a sensatez na capacidade de intervenção, para tirar partido do treino personalizado! Claro que seria muito fácil para mim, ou qualquer outro bom ex-jogador, tentar ultrapassar os problemas, ou aconselhar os jogadores, dizendo e aconselhando esses atletas a fazer exactamente o que eu faria, perante as mesmas situações. Mas, é isso ser um bom treinador? Eu penso que não!

Apesar disso, olhamos para os espanhóis, a maneira como competem e creio que facilmente definimos “o jogador espanhol”. Onde incluímos 95% dos jogadores espanhóis. Olhamos para os checos e definimos uma escola (um estilo de jogo), já completamente diferente. Onde caracterizamos determinadas pancadas e jogadas. No sector feminino, nas jogadoras de Leste ainda se torna mais acentuado o que acabo de afirmar. Há algum tempo o mesmo se poderia dizer dos suecos, ou dos franceses, por exemplo.

E, por isso, este tipo de análise faz-me chegar ao seguinte: DEVERÍAMOS NÓS, em Portugal, fazer a mesma coisa? Privilegiar uma maneira de jogar? Em detrimento de outros potenciais bons jogadores, mas que não preenchem certos requisitos? Eu continuo a acreditar que não devemos.

Escolas de ténis ou academias de competição, em países como o nosso, não podem ter estas prioridades! Porque não existe qualidade de jogadores em quantidade suficiente para nos “darmos ao luxo” de poder perder alguns deles. Não se ensina ténis da mesma maneira em todos os lugares. Mas podemos ter algumas “máximas”! Que podemos usar com os nossos rapazes e raparigas. Isso é algo que me sinto orgulhoso de desenvolver na academia de ténis que dirijo. Já faz parte do treino standarderizado. E isso pode e deve ser feito desde o início da carreira de um futuro jogador.

A Importância das Características Físicas do Jogador

Como todos os outros, este sub-tema é muito importante para o treinador, para tirar o máximo partido do jogado ajudando-o assim a encontrar as jogadas e tácticas que mais lhe convêm.

Toda a gente entende, por exemplo, a dificuldade que um jovem alto, lento, devido a recente crescimento, mas já com bom jogo de rede, em princípio sente se jogar só de fundo do campo. Ou se só jogar em terra batida. Porque o jogador nunca irá sentir o quanto é realmente forte e o que consegue fazer aos seus adversários se nunca jogar em superfícies rápidas. E, por outro lado, ele vai certamente sentir alguma frustração, porque o vão incentivar e vai trabalhar em certos aspectos, em que ele, evidentemente, não é tão forte.

Um outro bom exemplo seria aquele em que, trabalhando com um jogador de baixa estatura, sem um bom serviço e vólei, o encorajam a fazer bastante serviço/vólei.

Algo neste contexto que me preocupava em Portugal e, nos últimos anos, tem mudado um pouco, é o facto de os Campeonatos Nacionais serem, desde os Sub-12 até aos séniores, sempre na mesma superfície. Por exemplo, em terra batida. Quando há zonas no país onde os campos de terra são inexistentes, mas donde, por vezes, saem bons jogadores juvenis – pelo menos, nas idades mais jovens. Porque depois disso, frequentemente, desmotivam-se.

Num passado recente acontecia com frequência (agora talvez menos) pensamentos do género: “se no meu país não ganho mais, especialmente nos campeonatos mais importantes, é mais difícil o acesso às selecções nacionais, etc.”

Mas porquê?

De facto, é minha convicção que não devemos caracterizar uma maneira de jogar única, nem condicionar habilidades dos nossos jogadores, fundamentais para o seu desenvolvimento futuro como atletas.

Desenvolvimento Técnico e Táctico em Função do Perfil do Jogador (carácter, etc.)

Há várias coisas nas quais, hoje como treinador, posso e por vezes tenho de interferir. Coisas básicas. Máximas que eu defendo, coisas técnicas, boas soluções tácticas para qualquer jogador. Mas depois vem uma coisa fundamental, que é a importância de conhecer a maneira de ser do jogador. A sua personalidade. Sem isso e sem ser sensível a isso é, em minha opinião, impossível de trabalhar a alto nível. A minha experiência diz-me que é uma utopia pensar que é possível fazer um trabalho individualizado, sem isto. Antes de mais, o treinador tem de tentar entender o jogador. Saber um pouco da sua vida, as suas tensões e problemas e como é que ele gosta de enfrentá-los.

Depois disso, ou melhor, à medida que mais sei, porque como em qualquer relação, isto é algo que se trabalha diariamente, passando tempo com o atleta, eu sinto-me muito mais à vontade para ajudar.

Se eu tiver um jovem que gosta de arriscar, com forte personalidade, provavelmente vou-me concentrar em certos aspectos e irei motivar o jogador a trabalhar certas bolas e jogadas, com as quais ele possa mais assiduamente comandar os pontos. Se tiver um jogador que tem dificuldades em tomar decisões, talvez a melhor maneira seja, melhorando-lhe paralelamente o jogo ofensivo, mas preparando melhor os pontos, ajudá-lo a criar um jogo mais consistente.

De todas as formas isto significa também boa condição física e rapidez de pernas e, por isso, aqui aparece de novo a importância do tema anterior. E se um jogador tiver um bom perfil para algo, mas os seus recursos técnicos não lhe permitirem desenvolver as jogadas teoricamente mais óbvias, o treinador pode ajudar a encontrar as melhores tácticas, para enfrentar as mesmas decisões e resultados.

Muito mais poderia ser dito acerca disto. É por isso que o ténis é tão bonito!

João Cunha e Silva


A Cunha e Silva Tennis Academy

A Escola de Ténis CETO/João Cunha e Silva surgiu em 2000, altura em que João Cunha e Silva, o mais internacional de todos os jogadores portugueses na Taça-Davis e ex-número 1 mundial de juniores em 1985, abandonou a sua carreira de jogador profissional. Com instalações em Nova Oeiras, sempre vocacionada para o ensino e prática do ténis.

Passados 15 anos, Cunha e Silva continua à frente da Escola / Academia de Ténis com uma equipa técnica de grandes profissionais, a formar grande quantidade de jovens e a treinar excelentes jogadores. Alguns dos quais com resultados muito significativos em provas ATP, WTA, ou ITF. De entre os muitos e excelentes jogadores de ténis que a Escola / Academia CETO/João Cunha e Silva já formou, desenvolveu e aperfeiçoou, destacam-se pelos seus resultados relevantes tanto a nível nacional como internacional, Frederico Gil, Rui Machado, Leonardo Tavares, Pedro Sousa, João Domingues, Gonçalo Nicau, Gonçalo Pereira, Martim Trueva, Gonçalo Falcão, Francisco Dias, Felipe Cunha Silva, Bárbara Luz, Catarina Ferreira, Elitsa Kostova, Patrícia Martins, Anna Savchenko, Joana Valle Costa, Sofia Sualehe, Carlota Santos, Claudia Cianci, Rebeca Silva.

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Sobre o autor
- Artigo escrito ou editado pela equipa de redação.

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