Palavra de João Cunha e Silva #7: Há programas e programas

Há vários anos, quando me iniciei profissionalmente como jogador sénior, fui com a equipa de Portugal para o Campeonato da Europa de Selecções para Budapeste, Hungria, que nessa altura ainda se disputava no final do mês de Janeiro, ou seja, no começo da época. Onde me confrontei com a temperatura mais baixa que apanhei até hoje, 26 graus negativos! Estava aquele país no pico do Inverno e, quer eu, quer os meus companheiros de equipa, ao saber da temperatura que ali iríamos encontrar, comprámos collants e outros agasalhos que em Portugal raramente utilizávamos.

Como programação, para dar continuidade àquela semana, a minha primeira competição do ano, o meu treinador de então tinha escolhido (note-se que com a minha anuência, ainda que com a inexperiência própria dos meus 19 anos) 2 torneios na Nigéria!!!

Combinámos e tratámos das coisas de forma a nos encontrarmos em Londres, pois eu tinha ido a Budapeste, assim como toda a Seleção, com o capitão e Selecionador Nacional. Chegado a Londres, encontrei não só o meu treinador, como também um jogador suíço, Stefan Medem e outro bom jogador inglês, Jeremy Bates, um dos melhores no seu país nesse momento e mais tarde director técnico da Federação inglesa.

Também eles vindos da mesma competição, embora de divisões diferentes, pretendiam jogar os mesmos torneios na Nigéria, o primeiro na cidade de Enugu e o segundo em Lagos. O Jeremy Bates era cabeça de série em ambos.

E então, ao final da tarde desse primeiro dia de Fevereiro, nós os 4 lá nos dirigimos para a porta de embarque com os bilhetes “OK” na mão, a fim de entrarmos no vôo da Nigerian Airways, que nos levaria primeiro à capital da Nigéria, Lagos.

O problema é que a partir justamente desse dia, o governo britânico tinha começado a exigir vistos de entrada aos nigerianos e por conseguinte, cerca de metade dos passageiros do vôo anterior vindos de lagos, que pretendiam desembarcar em Londres, foram recambiados pelas autoridades britânicas para Lagos nesse mesmo avião. Resultado, muitas das pessoas com bilhete confirmado ficaram em solo inglês, pois o vôo encontrava-se completo e nesse grupo estávamos os 4 incluídos. A aflição foi obviamente grande, porque o mais tardar, pelo que as regras permitiam, teríamos de jogar na 3ª feira, em Enugu.

O vôo Londres – Lagos demorava aproximadamente 6 horas (durante a noite) e tínhamos ainda de fazer o transbordo do aeroporto internacional para o de vôos domésticos e apanhar o avião que nos levaria a Enugu. Frente a tal contrariedade e depois de muita discussão, a única solução apresentada pela companhia, foi sugerir-nos para nos apresentarmos muito cedo no dia seguinte no aeroporto, de forma a apanharmos vôo 24 horas mais tarde, sendo dos primeiros a entrar no avião. Ora desta maneira (e não conseguimos alternativa), apenas chegaríamos a solo nigeriano já na própria 3ª feira de manhã e as chances de podermos perder por “falta de comparência”, depois de tanto viajar e “suar”, começavam realmente a existir.

Já para não falar das condições adversas com que nos iríamos deparar, 36 graus positivos e cerca de 90% de humidade no ar e falta de tempo para nos aclimatarmos minimamente. Urgia portanto, entrarmos em contacto com a organização do torneio em Enugu, para explicarmos o sucedido e pedirmos para colocarem os nossos encontros, o mais tarde possível na 3ª feira.

Depois de tudo tentarmos, telefone, fax, telex, sozinhos e junto de todas as Instituições (Federação Inglesa, ATP, ITF), o máximo conseguido foi falarmos com a mulher do juiz-árbitro indiano presente em Enugu, que residia em londres e que veio inclusivamente, muito amavelmente, ao aeroporto ter connosco, prometendo-nos que continuaria ela a tentar contactar “com Enugu”, enquanto estivéssemos a voar. Que jeito os telemóveis e/ou internet teriam dado…!

Chegados a Lagos, cansados e com sono, depois de muito evitarmos vários taxistas que não queríamos, apanhámos um, que nos transportou ao aeroporto de vôos nacionais. Foi com enorme espanto que vimos o próprio taxista cobrar-nos “a corrida”, sair do táxi, e ir para trás de um dos supostos balcões de check-in (pois não consigo descrever o tipo de aeroporto de que estou a falar!), aceitar-nos as bagagens e dar-nos os respectivos cartões de embarque.

Era suposto haver 6(!) vôos diários de Lagos para Enugu. Mas as também 6 horas que se seguiram pareceram-me intermináveis. Naquele aeroporto, com um calor sufocante (para mim uma mudança superior a 60 graus, em 48 horas!), sem ar condicionado, nem janelas. Um cheiro nauseabundo, com várias pessoas descalças. Sem comer, por uma questão de higiene, porque o que havia, estando ao calor e cheio de moscas, era repugnante. Havia, na sala de espera, muitas pessoas com 3 cicatrizes horrendas em cada uma das faces que, mais tarde, percebi deverem pertencer a alguma tribo ou religião. E, para cúmulo, por cada avião que parava na pista, tinha de ir um de nós perguntar se era aquele que iria para Enugu, pois não havia indicações e para esta cidade não ia nenhum. Por volta das 17h, tinha-me “tocado” a mim ir para a pista e depois de “caçar” o comandante, que tinha descido, chamei os meus 3 companheiros, gritando que aquele iria finalmente para Enugu. Aí chegados por volta das 18h30 locais, tomámos conhecimento que havíamos todos perdido por “falta de comparência”, pois a organização, não tendo conseguido também ela contactar com ninguém e não tendo recebido qualquer notícia nossa, tinha assumido que já não iriamos.

Foi, de facto, uma experiência! A não repetir! Da qual me recordo com uma clareza impressionante. Mesmo porque nesta viagem várias outras coisas muito interessantes aconteceram, mas para as quais agora não disponho de espaço para contar.

Um conselho, uma sugestão, no entanto, deixo aos mais novos. Para se singrar e atingir lugares de destaque, há que jogar bom ténis. Pode-se arriscar, de vez em quando, programações mais ousadas, mas torneios em teoria mais acessíveis, em lugares estranhos, escondem normalmente outras adversidades que é necessário saber medir. Aliás, os referidos torneios viriam mais tarde a ser extintos pela ATP.

ATÉ À PRÓXIMA!

João Cunha e Silva


A Escola / Academia de Ténis de João Cunha e Silva

A Escola de Ténis CETO/João Cunha e Silva surgiu em 2000, altura em que João Cunha e Silva, o mais internacional de todos os jogadores portugueses na Taça-Davis e ex-número 1 mundial de juniores em 1985, abandonou a sua carreira de jogador profissional. Com instalações em Nova Oeiras, sempre vocacionada para o ensino e prática do ténis.

Passados 15 anos, Cunha e Silva continua à frente da Escola / Academia de Ténis com uma equipa técnica de grandes profissionais, a formar grande quantidade de jovens e a treinar excelentes jogadores. Alguns dos quais com resultados muito significativos em provas ATP, WTA, ou ITF. De entre os muitos e excelentes jogadores de ténis que a Escola / Academia CETO/João Cunha e Silva já formou, desenvolveu e aperfeiçoou, destacam-se pelos seus resultados relevantes tanto a nível nacional como internacional, Frederico Gil, Rui Machado, Leonardo Tavares, Pedro Sousa, João Domingues, Gonçalo Nicau, Gonçalo Pereira, Martim Trueva, Gonçalo Falcão, Francisco Dias, Felipe Cunha Silva, Bárbara Luz, Catarina Ferreira, Elitsa Kostova, Patrícia Martins, Anna Savchenko, Joana Valle Costa, Sofia Sualehe, Carlota Santos, Claudia Cianci, Rebeca Silva.

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Artigo escrito ou editado pela equipa de redação.

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