João Sousa: Crónica de uma conquista anunciada

Desde aqueles surpreendentes oitavos-de-final no Estoril Open de 2008, que se revelaram um perfeito lamiré do que estava por vir, o então franzino e endiabrado João Sousa cresceu a palmos vistos. O equipamento que chegava para dois passou a ser ocupado por uma atlética e resistente estrutura física, o ténis amadureceu e os resultados desabrocharam ao ponto de se tornar no melhor português de sempre… E não ficar satisfeito. A paixão pelo jogo, a fome de vitórias, a aguerrida e combativa atitude no court e a insistente vontade de se tornar num jogador melhor tornaram-no, no domingo passado, o primeiro campeão português do maior torneio nacional. E que orgulho, caramba.

Para quem anda nisto há uns anos, bem longe das décadas dos profissionais que começaram a levar a modalidade às pessoas ainda de papel e de caneta na mão (sem ofensa) e numa altura em que capas de jornais com jogadores de ténis a sobreporem-se a campeões nacionais de futebol nem uma miragem eram ainda, a maior glória do ténis português tem tanto de previsível e real como de surpreendente e utópico. O nascimento do João para o ténis aconteceu quando o Bola Amarela despontou para o mundo, desamparado e praticamente incógnito. Esses tais ‘oitavos’ no Jamor, alcançados ainda com a ingenuidade de quem não sabe o que é jogar com os ombros derreados pelas expectativas mas com a entrega que deixava já adivinhar a ânsia de grandes proezas, fizeram-nos não mais tirar os olhos de si. E foi assim, a par e passo, que se passaram dez anos. Uma década de muitas linhas escritas com a frustração na ponta dos dedos, pelas derrotas inesperadas, quedas no ranking e oportunidades falhadas, mas sobretudo com a emoção e o orgulho nas destemidas e memoráveis conquistas que só os mais ousados (lunáticos?) poderiam adivinhar.

No domingo, o João revelou a grandeza de quem não se deixa atormentar pelo medo de falhar e a maturidade de quem está calejado pela dura vida escolhida, defendida com a tenacidade nortenha e a garra aprimorada pelos 15 anos anos vividos em Espanha. Aquilo que há uns anos entrava na esfera do impossível ou do sonho, fez de tal forma sentido que parecia estar escrito desde o início. Caído de costas na terra batida por não ter ainda caído em si, o João fez mais do que fazer o que nenhum outro fizera. Fez-nos acreditar que o futuro é seu. Que pode tudo, incluindo o impensável. Que pode meter um país a falar de ténis em dia de fecho de campeonato de futebol. Que pode valentemente com a pressão. Que pode ser o melhor português de sempre e um dos melhores do mundo, continuamente. A nós, deu-nos a certeza de que andamos cá pelas razões certas. Esta semana, em particular, fez valer cada minuto dispensado a este site, cada linha escrita, cada sacrifício feito em prol de um projeto mantido com o desmedido amor à camisola. Algum dia tinha de ser, dizíamos, apesar das precoces derrotas dos últimos anos teimarem em tirar-nos a esperança que o João continuava a alimentar no court.

E, este ano, parecia destinado. Enquanto o Zé insistia no “bom feeling em relação ao João”, que disse sentir desde o primeiro dia, eu ia assegurando que ele “só precisava de passar a primeira ronda”. A Sofia, como que a antever o que por aí vinha, fez a pergunta que se impunha ao professor Marcelo, que, entre uma trinca na sandes de queijo e um gole de sumo de sabor incógnito (um dos grandes mistérios desta edição do torneio) ia revelando ser um adepto conhecedor e atento. “Este é o ano de João Sousa?” O “pode ser” do presidente cumpriu-se e cada um de nós viu as suas (espécie de) premonições realizadas, com o coração a querer saltar pela boca e os olhos esbugalhados, não tanto de espanto, mas dilatados pela vontade de querer gravar cada instante.

Com o episódio mais bonito da história do ténis a passar-nos pelos olhos, o Zé encontrava nas redes sociais o altifalante perfeito para fazer chegar ao mundo a façanha do João, perguntando, sem tirar os olhos do telemóvel, e mais para si do que para os outros, “como é que se escreve depois disto?”. A Sofia tentava, em vão, esconder as lágrimas por detrás dos óculos de sol, deixando-se trair por um teimoso fungar quando Adelaide e Armando Sousa entraram no court para abraçar o filho campeão. Eu, que, confesso, já tinha escrito a notícia da vitória antes de o ser, num misto de confiança e de vontade de ver fazer-se história calma e despreocupadamente, só pensava na ingrata tarefa de ter de encontrar palavras para fazer jus a um momento tão bonito e marcante nos dias (anos!) seguintes. Por isso, quando na segunda-feira cheguei ao trabalho e o chefe, a quem pedi férias para ir (trabalhar – diriam alguns) viver a semana mais colorida do meu calendário, me perguntou como é que tinha corrido “lá por baixo”, apressando-se a comentar com um desprendido “até ganhou um português”, eu travei a voz e o turbilhão de palavras que me chegavam à garganta para responder calma e orgulhosamente: “foi perfeito”.

 

 

Sobre o autor
- Descobriu o que era isto das raquetes apenas na adolescência, mas a química foi tanta que a paixão se mantém assolapada até hoje. Pelo meio ficou uma licenciatura em Jornalismo na Escola Superior de Educação de Viseu e um Secundário dignamente enriquecido por cadernos cujas capas ostentavam recortes de jornais de Lleyton Hewitt. Entretanto ganhou (algum) juízo, um inexplicável fascínio por esquerdas paralelas a duas mãos e um lugar no Bola Amarela. A escrever por aqui desde dezembro de 2013.

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