Darko Grncarov: o jovem que acordou do coma acredita ter «superpoderes», adora Portugal e é fã de Nicole Scherzinger

Sofreu um AVC com 18 anos, esteve em coma, acordou seis meses depois e está agora em preparação para a época de 2018. Aos 20 anos, de olhos postos na competição, Darko Grncarov mostra de que fibra é feito e a razão pela qual a força de vontade é (quase) tudo para superar os momentos difíceis. Se se considera um herói? Talvez, mas o jovem oriundo da Macedónia diz estar “orgulhoso” de si mesmo.

“Tenho de dizer que estou orgulhoso. Só me sinto como um herói se conseguir motivar pessoas ou atletas para nunca desistirem. Não sou mais importante do que ninguém, mas a minha missão é partilhar a minha história tanto quanto possível para levar a minha esperança aos atletas com algum tipo de lesão”, começou por dizer Grncarov, em entrevista ao ‘Bola Amarela’, explicando que, por vezes, até sente que tem “superpoderes”.

“Sei que tenho muita força de vontade e, às vezes, sinto que tenho superpoderes (risos). Consigo realmente motivar-me a mim mesmo e penso que consigo motivar os outros muito facilmente também”, sublinhou, referindo que, depois do que lhe aconteceu, ficou limitado a vários níveis. Antes de ter sofrido o AVC, treinava seis ou sete horas por dia, mas agora sabe que tem de poupar esforços.

“Diminuí para as 2 horas e meia de treino. Não posso forçar muito e esta é a única regra que estabeleci com os médicos. Após alguns meses posso voltar a treinar normalmente. Agora tenho de beber muitos líquidos, porque a minha saúde depende maioritariamente da quantidade de líquidos que ingiro”, disse, tendo sido surpreendido por um acidente vascular cerebral dois dias antes de disputar a sua primeira série de torneios future, na Turquia, em dezembro de 2015.

Apesar de todas as limitações – chegou a estar meses sem andar e perdeu também a audição do ouvido direito -, o amor pelo ténis fez com que Darko Grncarov contrariasse as previsões dos médicos e, a realizar exercícios em segredo, trocou as voltas aos números avançados pelo especialistas: demoraria entre cinco e sete anos a voltar a andar.

“Tinha 18 anos quando me disseram que iria ter muitas dificuldades, com muitas coisas, especialmente com o meu ténis. Não consegui lidar muito bem com isso nos primeiros dias, mas depois disse para mim mesmo que não iria ganhar nada se ficasse deprimido. Sabia que tinha de manter a cabeça erguida e deitar para trás das costas aquilo que a vida me reservou”, confessou. Agora, ainda sem ranking ATP e com precaução, vai treinando para o seu primeiro torneio challenger da carreira, em Rennes, França, que se realiza entre 22 e 28 de janeiro.

Some morning skills 🙌🏼

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Inspirações e simpatia do circuito

Quando se enfrentam momentos difíceis na vida, agarramo-nos às nossas inspirações e não as largamos até darmos a volta por cima. No caso de Darko Grncarov, a família foi fundamental neste processo, mas também a cantora Nicole Scherzinger, namorada de Grigor Dimitrov. Sim, é este o verdadeiro crush do macedónio.

“As minhas maiores inspirações são as minhas sobrinhas, a Kaya e a Nicole, a minha equipa e a minha família, especialmente a minha irmã e o meu cunhado. Mas também quem me mantém motivado e me inspira é a Nicole Scherzinger, que é a minha paixão (risos). Adoro a música dela, motiva-me e dá-me força em tudo”, revelou, esperando que Dimitrov não seja leitor assíduo do ‘Bola Amarela’. Apesar disso, no que diz respeito ao mundo do ténis, foram muitos aqueles que lhe deram apoio nos momentos complicados.

“O mundo do ténis foi incrível! O Viktor Troicki foi o primeiro jogador a publicar algo sobre mim e também me mandou mensagens, chamando a atenção do Janko Tipsarevic e do Novak Djokovic. Também estive em contacto com o Tomas Berdych muitas vezes no Instagram”, começou por dizer, não esquecendo, claro, de mencionar o nome do seu melhor amigo.

“O ATP World Tour e a Wilson foram os primeiros a ajudar-me e a dar-me apoio. E, claro, uma pessoa que é como irmão ou pai para mim, o meu melhor amigo Ralph De Geus, que é o diretor executivo da Balr [marca holandesa fundada por jogadores de futebol profissional]. Outros jogadores também me apoiaram, tais como o Christian Harrison, Pere Riba, Marcelo Arevalo, entre outros”, enumerou o macedónio, que também trouxe à tona o nome de… Portugal e o quanto os portugueses o têm ajudado.

“Portugal partilhou a minha história, muitos jornalistas mandaram-me mensagens no Twitter e no Instagram a mostrar apoio. Já a ATP ajudou-me ao manter contacto comigo e até vamos fazer um documentário no meu primeiro torneio no circuito ATP Tour “, explicou.

«O Cristiano Ronaldo é o meu jogador preferido»

Quando falamos de Portugal, temos inevitavelmente de evocar o nome de… Cristiano Ronaldo. Pois bem, o futebolista português é o jogador favorito de Darko Grncarov e há também uma equipa lusa que o encanta: os azuis e brancos. Mas Darko tem igualmente outros interesses, nomeadamente no que diz respeito à cultura musical e ao território luso.

“Sei muita coisa sobre Portugal (risos). Antes de ter sofrido o AVC era suposto jogar alguns torneios future, porque escolhia os torneios em que participava pelos países. E tinha planeado jogar muitos torneios em Portugal, porque queria mesmo visitar o país. O Cristiano Ronaldo é o meu jogador preferido, o Futebol Clube do Porto é a minha equipa favorita e a canção que ganhou a Eurovisão era fantástica. Adoro Lisboa e Albufeira”, revelou, reforçando a sua adoração por Portugal.

“Adoro Portugal e adoraria jogar em Portugal. Infelizmente não tenho planeado jogar challengers ou ATP World Tour em Portugal no próximo ano, mas acredito que haverá mais oportunidades nas próximas temporadas”, ressalva o macedónio, que admite ter como principal objetivo começar a competir o mais depressa possível.

Com sonhos não muito rebuscados, Darko Grncarov, que não é amigo próximo de tenistas portugueses mas torce por Gastão Elias e João Sousa, tem uma meta que gostaria de alcançar: o tão desejado top 100 do ranking ATP. “Os meus sonhos são apenas jogar, jogar e jogar. Alcançar o máximo que conseguir e espero entrar no top 100 do ranking ATP o mais depressa possível. Depois disso é ir o mais alto que conseguir”, disse.

«Não tenho qualquer apoio do meu país… Não existe respeito»

Apesar de todo o seu positivismo e de ter uma grande força psicológica para ultrapassar obstáculos, é inevitável o facto de Darko Grncarov se sentir triste quando se debruça sobre os apoios que lhe são dados no seu país. Insatisfeito, adiantou que não recebe qualquer apoio da Federação de Ténis da Macedónia.

“Parece que nem se preocupam com os jogadores de ténis aqui. Eles querem sucesso, mas não fazem nada. Toda a gente quer que a Macedónia tenha um tenista profissional, mas ninguém se esforça para que isso aconteça. Temos muitas agências que dão formação a jovens atletas, com necessidades, mas nunca ajudam os jogadores de ténis”, revelou Grncarov, que, assim, precisa de todo o tipo de apoios de outros países para ter um futuro enquanto tenista profissional.

“Recebo muito apoio mas de outros países, como de Espanha, Portugal e também recebo do Reino Unido. Infelizmente no meu país não existe respeito pelo ténis ou por ajudar tenistas. Quero agradecer aos sites de ténis em Portugal, aos jornais, porque me apoiam muito e não poderia estar mais feliz pelo facto de um país como Portugal me dar apoio”, sublinhou, continuando a relatar aquilo que o deixa… sem palavras.

“No meu país apenas andavam a copiar o que outros sites do mundo inteiro publicavam sobre mim. Nunca me mandaram uma mensagem para fazer um artigo ou apenas para me darem apoio na minha carreira de tenista, com patrocínios, por exemplo. Muitas marcas internacionais me ofereceram ajuda e na Macedónia ninguém”, rematou Grncarov.

Tristezas à parte, o que é certo é que Darko Grncarov não manda a toalha ao chão nem cruza os braços. Pois é, espera-se um 2018 igual a si próprio: recheado de vitórias.

Sobre o autor
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Licenciado em Ciências da Comunicação – vertente de Jornalismo – pela Universidade Autónoma de Lisboa. Ténis é a minha vida. Colaborador do site Bola Amarela desde Dezembro de 2011.

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