Documentos secretos expõem campeões de Wimbledon e top-50 em esquema de viciação de resultados

A primeira jornada do Open da Austrália ficou manchada por um assunto que vai fazer correr muita tinta. A “BBC” e o “BuzzFeed” alegam ter documentos que provam a viciação de resultados “no nível de topo do ténis mundial, incluindo em encontros disputados em Wimbledon”. Estas acusações levaram o presidente da ATP World Tour a organizar uma conferência de imprensa onde diz que o assunto está a ser investigado e que nada vai ser deixado ao acaso.

Ainda nem uma mão cheia de encontros tinha chegado ao fim em Melbourne Park quando a “BBC” e o “BuzzFeed” anunciaram ter em sua posse documentos que provam a viciação de resultados no ténis. As informações terão sido cedidas por um grupo de 20 informadores nos bastidores do ténis, que optaram por se manter no anonimato.

Os documentos contém informações recolhidas durante uma investigação organizada pela própria ATP, em 2007, e onde está até discriminada a suspensão de Martin Vassallo Arguello no seguimento do polémico encontro com Nikolay Davydenko, em Sopot – os documentos indicam que o jogador argentino terá trocado 82 SMS com um representante de uma casa de apostas italiana.

De acordo com o “BBC”, casas de apostas na Rússia, Itália e Sicília lucraram milhares de euros com a viciação de resultados, incluindo em três encontros que aconteceram em Wimbledon. O “BuzzFeed” vai ainda mais longe e, no seu artigo, revela que nos documentos, apelidados de Fixing Files, existem dados relativos a vencedores dos títulos de singulares e de pares de Wimbledon no lote de jogadores que estariam sob investigação, no qual também se inclui um jogador do top-50, de um total de oito, que estão esta semana a competir no Open da Austrália. Os jogadores terão sido aliciados com 50 mil dólares em alguns dos principais torneios do calendário.

Nikolay Davydenko (Reuters) e Martin Vassallo Arguello (AFP)

Nikolay Davydenko (Reuters) e Martin Vassallo Arguello (AFP)

Toda esta investigação foi seguida a par e passo pela Tennis Integrity Unit (TIU), a entidade reguladora, que sempre afirmou ter a rédea curta e tolerância zero para este tipo de comportamentos.

Um relatório datado de 2008 dá conta de um total de 28 jogadores – 16 deles estão ou já estiveram no top-50 – que estariam sob a sua mira, mas nunca terão sido encontrados indícios realmente comprometedores. Nos anos seguintes, a TIU recebeu alertas de viciação de resultados causados por um terço destes mesmos jogadores mas, uma vez mais, não foi aplicada qualquer sanção.

Mark Philips foi um dos investigadores que conduziu as operações em 2007 e que vem agora a público. O investigador disse à “BBC” que as provas encontradas eram bastante fortes, mas que a TIU não tem autoridade para requerer investigações às contas bancárias ou aos telemóveis dos jogadores, o que acaba por condicionar bastante o seu trabalho.

Havia um grupo de dez jogadores que nós acreditávamos que eram a base de todo o problema. A prova era bastante forte. Parecia haver uma boa oportunidade de travar isto antes que crescesse ainda mais e eliminar as maçãs podres”, confessou Philips, que admitiu ter recolhido algumas das evidências de viciação mais fortes dos últimos 20 anos.

Os detentores dos Fixing Files optaram por não divulgar nomes dado que nada nos documentos é conclusivo, mas o sistema de viciação no ténis já há muito que chama a atenção da Associação Europeia da Segurança do Desporto. Em 2015, terão sido reportados mais de 50 encontros suspeitos à TIU, e a organização declara que este é um dos desportos mais atrativos para este tipo de atividades ilícitas.

Presidente da ATP rejeita acusações de encobrimento de provas

Chris Kermode não teve tempo a perder. Mal deu conta das notícias mais recentes, anunciou uma conferência de imprensa em pleno Melbourne Park para esclarecer toda a situação, dizendo que “nenhuma prova foi suprimida e as novas descobertas serão investigadas. A TIU nada pode fazer sem provas“, acrescentando que a ATP não terá sido “complacente” com esta situação decorrida em 2007.

Poucos minutos depois, um comunicado por parte de todas as entidares reguladoras do ténis, na qual também se inclui a ITF, apoiam as declarações do presidente da ATP. Na conferência foi também abordado o facto de várias casas de apostas, como a Williams Hill e a Betway, patrocinarem vários eventos de ténis, algo que Kermode desvalorizou, acrescentando que esta é uma atividade legal em vários países e em nada compromete as investigações.

Conferência de imprensa. Foto: Pam Shiver

Conferência de imprensa. Foto: Pam Shiver

Recorde-se que já em setembro do ano passado este foi um tópico bastante falado em Espanha, ainda que com diferentes protagonistas. Alguns dos principais jogadores portugueses tiveram até algo a dizer sobre o assunto.

Sobre o autor
- Licenciado em Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. Jornalista da GQ Portugal e colaborador do Bola Amarela desde novembro de 2011, pouco tempo depois de começar a seguir mais atentamente o mundo do ténis. Pretende nunca mais parar.

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